Muita Ironia e Pouca Vergonha na Cara

Blog do escritor Glauber da Rocha

11:03

CAIXA DE E-MAIL'S.

Postado por Glauber da Rocha |


Ontem resolvi fazer uma faxina na minha caixa de e-mail’s – como, aliás, venho fazendo com tudo em minha vida... Tal tarefa me custou à tarde inteira, visto que faz mais de anos que mantenho este endereço, o glauberdarocha@hotmail.com. (Se quiser, meus leitores, podem enviar e-mail’s para mim, eu não ligo...)

Excluindo tudo o que não me era útil, e lendo alguns, fui recordando os tempos, tal como acontece quando vemos fotos ou quando mexemos nas caixas em que guardamos nossos pertences há algum tempo. Foi muito boa essa experiência, ótima. Lembrei-me de amigos, de tarefas em que estava envolvido, da época da universidade, das minhas tentativas em entrar no Mestrado e publicar meus livros por uma grande editora.

Mas não é sobre isto que quero relatar aqui. O que me faz escrever sobre a minha caixa de e-mail é o fato de me deparar com algumas mensagens verdadeiramente engaçadas, de situações cômicas em minha vida. A primeira delas, talvez a mais hilária, é de uma garota que eu estava ficando há uns seis anos atrás. A encontrei na universidade onde ela estudava, tinha acho que dezessete anos e era virgem. Eu a levava para um dos quiosques do campus, num lugar bem escuro, e lá começava toda a brincadeira que todos nós gostamos.

Num dia, ela se entregou de corpo e alma às minhas carícias, e de repente teve um pulo. Fechou as calças, abaixou a blusa e me mandou guardar meu membro querido. Ela voltou para sala de aula e eu voltei para casa. No outro dia, ao abria a minha caixa de e-mail, vi uma mensagem sua:

Olá....td bem???? Só quero saber uma coisa,posso??? É pra me mandar a resposta
viu!!!! É o seguinte....qd vc estava todo empolgado....pq vc sabe q eu não gosto
q seja pra frente entende....eu só queria saber se a gente transou pq eu tenho
certeza q não transamos neh??? Entendeu oq eu quis dizer???? Vc quer algo comigo
mesmo???? Se quiser, vai ter q me respeitar em relação ao que eu falei, de vc
não fazer aquilo q vc fez ontem, blz???? Combinado???? Eu quero mto te ver sim,
mas c/ essas condições....entendeu???? Me mande a resposta no meu e-mail, eu
aguardo a sua
mensagem.....
Bjos da Vanessa


Lembro que tive a vontade de dizer que sim, que transamos, que ela não era mais virgem e que aonde passa um boi passa uma boiada; entretanto, por questões burras, bem burras, resolvi respeitar a integridade física e moral da moça; e não só isto: que ela merecia perder a virgindade em um lugar e circunstâncias mais... mais... românticas!
Eu disse isto, leitores!
E o que eu ganhei? Que só iríamos transar quando casássemos!
Outro e-mail engraçado foi a de uma escritora que conheci na web. Quase todos os dias trocávamos e-mail. Eu mandava meus textos e ela os delas. Discutíamos sobre isto. Falávamos um do outro e estava rolando até um clima bem romântico – veja eu de novo com essa minha doença chamada romantismo! Num dia, ela me pediu um encontro. Disse que sim, mas o problema era que a tal escritora morava em São Paulo, bem longe de mim. Fui adiando o encontro, até ela entrar numa de que eu era FAKE. Veja um de seus últimos e-mail’s:

(...) Posso te garantir que foi com muita atençao e carinho que fiz meus
comentários aos seus textos, e também é sempre com muito prazer que eu dialogo
sobre literatura. Minhas cronicas jornalísticas nunca chegaram aos pés do que
hoje entendo por literatura, mas de um certo modo sinto que eu sempre respirei
literatura e as personagens sempre fizeram parte da minha vida, desde a minha
adolescencia, quando eu brincava de ser escritora.
Hoje, como crítica
literária que sou, tenho uma postura séria de pesquisadora, estudo todos os
dias, mas no fundo o que me dá mais prazer é brincar com as idéias e redescobrir
o mundo pelo olhar lúdico da literatura. Eu amo literatura e quando encontro uma
pessoa louca, como eu, que tenha essa mesma paixão literária, sinto-me muito à
vontade para conversar. Mas você, inteligente que é, deve entender que nao dá
para ficar batendo papo com um estranho, para sempre, e deixar fluir assim uma
amizade. Talvez para você, que é homem, isso seja normal, mas para mim não é.
Então as minhas razões, regras, como você diz, são essas
mesmo!
Mas saiba que eu também sinto falta de conversar com você,
pois temos afinidade!
Nem sei quem você é, mas eu gosto de você. Só que não
dá para continuar com isso.
Entende? Espero que sim. E quando quiser vir
aqui, será um prazer te conhecer.

Tentei reverter a situação, mandei-lhe e-mail’s tentando provar que eu era eu, mandei meu CPF RG e tudo mais; mas, não teve acordo: para ela eu não passava de um golpista ou sei lá o quê! Então, como último golpe de misericórdia, resolvi marcar o nosso encontro. Eu estava com dinheiro para comprar um notbook, mas estava disposto a não perdê-la de maneira alguma. O notbook que esperasse mais um pouco. Entretanto, olhem o que ela me mandou:

Não vai dar, Glauber
Eu não te conheço, mas saiba que seu IP já está
rastreado no meu computador.
Estou ficando fera em "crimes da Internet" e
processos judiciais virtuais.
Não quero conhecer você e não acredito em nada
do que você diz.
Adeus.
Abraçao!

Que coisa, não? Ainda escrevo com mais calma sobre isto. Quanto a vocês, leitores, podem me mandar e-mail’s. Se acabar com alguns desses, vocês correm a chance de acabarem em livro, ou em blog, como elas acabaram...

19:43

GOSTO DESTE CONTO!

Postado por Glauber da Rocha |

REVIRANDO O BLOG, REENCONTREI ESTE CONTO: A MERDA DA VIDA. REPUBLIQUEI COM FOTOS, TAL COMO O FIZ NA PRIMEIRA VEZ, COM TODO ZELO DO MUNDO - NAQUELA ÉPOCA ACREDITAVA QUE O BLOG PODIA MUDAR A MINHA VIDA...

LOGO À BAIXO, NA ÍNTEGRA, EI-LO:

19:27

A MERDA DA VIDA

Postado por Glauber da Rocha |




Esta minha vida era uma merda, literalmente. Quem hoje me vê assim, levando uma vida boa, rica e farta, não acredita o quê um dia eu fui nesse meu passado fétido e nojento. Tudo começou quando uma fossa lá em casa entupiu. Eu não tinha dinheiro, meu irmão não tinha dinheiro, a minha mãe não tinha dinheiro algum para mandar chamar um desentupidor de fossa. E, como eu era o único desempregado dentro de casa, com tempo e energia suficiente para ao menos tentar resolver o problema, resolvi arriscar.


Quem ficou ao meu lado foi um vizinho, amigo meu. Descendente de japonês, o homem. Ia me ajudar, mas sem meter a mão na merda. A sua ajuda iria ser apenas no incentivo. E lá fui eu... Abri a tampa da fossa, senti o fedor nojento, enfiei o arame cano à dentro, puxei, enfiei novamente, e assim fiquei, nesse vai e vem, tirando a sujeira. Até que de repente, senti um gosto estranho na boca, e vi que havia engolido merda. Cuspi, quase chorei, resolvi que era melhor parar, deixar tudo como estava, mas Ricardo não deixou: se você é homem mesmo, de verdade, vai até o fim!


Eu já estava cansado de fugir dos desafios, dos outros passarem por cima de minha honra, e por isso, decidi que ia desentupir àquela fossa nem que isto me custasse mil anos! Fiquei furioso, enfiei o arame com raiva, puxei, enfiei novamente, e fiquei assim, nesse vai e vem, tirando a sujeira. Era um fedor insuportável. De vez em quando, engolia fezes. Cuspia, tentando me livrar do gosto horrível. Mas não havia jeito: uma vez que você acaba comendo merda, o paladar fica impregnado por um bom tempo, e por mais que você cuspa, a impressão do gosto fica gravado no nosso ser como que para sempre. Agora, imagina conviver com esse gosto por vários dias seguidos, várias semanas, anos. Foi assim comigo.


Depois desse dia, começaram a aparecer serviços deste tipo para mim. Até hoje desconfio que foi o Ricardo quem me indicava. Vinha gente de toda a vizinhança, pedindo-me para desentupir fossa. E eu era formado em Administração de empresa, hein?E você pode dizer: uma pessoa formada em Administração de Empresas jamais iria desentupir fossas para sobreviver. E eu direi: em que país ou mundo você vive, meu amigo? Diploma não é mais garantia de nada, e assim como uma boa parte dos brasileiros que conseguem cursar um nível superior com muito esforço, eu estava encontrando dificuldades para arrumar o meu devido e muito bem merecido emprego.

E, como o emprego pode esperar, mas o dono da casa que cobra o aluguel não, aceitava desentupir fossa até dos meus inimigos e dos que tinham inveja de mim. Eu dei muito desse gostinho para eles. Mas cobrava caro, é certo. Se queria, queria; se não queria, chamassem outro. Então eu ia, metia a mão na merda, na fossa, nos canos sujos de graxa, óleo, comida, em toda aquela gosma feia e asquerosa, e concluía o serviço. Sentia uma satisfação enorme. Um orgulho muito grande.


O único problema é que o cheiro de merda não saia de jeito nenhum de minhas roupas, do meu corpo, do meu nariz.


– Meu filho, por que você não para com isso?, dizia a minha mãe quando me via sofrendo em cima do tanque.


As mães sempre são as primeiras a querer nos tirar do sofrimento merecido. Já os pais de verdade não: ver os filhos pegando no pesado, encarando todo tipo de desafio, é motivo para orgulhar-se mil vezes. Quanto aos amigos e mulheres, sempre saem de perto quando vêem o homem na merda. O único amigo que ficou do meu lado foi o Ricardo, este meu vizinho descendente de japonês. Isto porque ele foi lá para o Japão e no Japão teve que transformar-se em dois, três, quatro, para no fim das contas não voltar rico para o Brasil, como imaginava que iria voltar.

– Voltei é com o nervo ciático todo fodido. De tanto apertar parafuso de roda de carro na indústria onde trabalhava, com o passar dos anos a coluna e o nervo ciático do Ricardo ficaram comprometidas.

Ele não podia inventar de agachar um pouco que, se bobeasse, não conseguia levantar novamente, porque o corpo não obedecia. Então ele ficava agachado por horas seguidas, de cócoras, até conseguir levantar. Era um sofrimento dos diabos, ele dizia.


Mas homem que é homem não foge da luta, e eu, portanto, não podia fugir da merda. E quanto mais fossa desentupia, mais currículo eu deixava nas empresas. Não podia ter um tempinho de folga para andar pela cidade, conversando com os empresários, com os industriais, com toda essa gente. Era sempre a mesma conversa: quando aparecer uma vaga, te chamo.


E então eu esperava.


Ficava alegre por uns dois dias, crente que desta vez iam me chamar. Mas passava um dia, dois, três, uma semana, um mês e nada! Eu ficava puto da cara com isso. Nas minhas orações, eu blasfemava. Ajoelhado eu dizia: é isso que o Senhor quer para o seu filho, viver na merda? Se sim, até quando? Para sempre? Que tipo de Deus é o Senhor? Um Deus das desgraças? Que diabo eu fiz para Ti?


Deus parecia um surdo, um cego, um mudo. E eu continuava na merda, vivendo da merda, sonhando com merda. Quando vi, estava parecido com esses sujeitos que trabalham em oficinas mecânicas em beira de esquina, desses que andam sempre sujo, fedido, com cigarro do Paraguai na boca, encardido. Eu havia me transformado num pobre diabo, isso sim. As mulheres bonitas, se me viam de um lado da rua, passavam para outro, a fim de me evitar, de passar perto. Só não tinham nojo as feias, as gordas, as desdentadas.


De vez em quando, tomava um banho de uma hora mais ou menos, passava um perfume, vestia uma roupa limpa, e saia para algum lugar, a fim de arrumar uma namorada bonita. Mas era incrível. Parecia que elas sabiam quem eu era. Não podia nem chegar perto para ser repelido! Até hoje eu fico pensando: como elas conseguem saber que um cara está na merda? Intuição feminina?


O jeito era apelar para as feias. Essas, me aceitavam na mesma hora, me chamavam para dançar, me apresentava para as amigas. Depois, elas mesmas faziam questão de me levar para debaixo de uma árvore escura, em alguma rua deserta. Ou então, quando por um milagre tinha dinheiro sobrando no bolso, para um motel. Agora, eu te pergunto: não era motivo para desistir da vida? Eu não era feio, nem burro. Eu era apenas um azarado, um desgraçado, um excluído, um Zé Ninguém que não pode ter uma oportunidade para subir na vida, mesmo com um diploma na mão.


Eu era um rapaz bonito, inteligente, mas que por ironia do destino, estava na merda, desentupindo fossa. Todos no bairro sabiam disso. Alguns até que aprovavam: é isso mesmo, José, temos que trabalhar, não importa no quê; mas, a maioria dizia, eu sei que dizia: olha, um rapaz tão novo, com dentes brancos, rosto bonito, formado, e desentupindo fossa... O que será desse nosso Brasil?


– É, ter diploma não mão hoje em dia não quer dizer mais nada...


– Do que adiantou ele ter estudado tanto?


O pior de tudo era os finais de semana, na casa de meus avôs, onde me encontrava com os parentes todos. Meu avô era o primeiro a me humilhar na frente de todo mundo, dizendo que eu não tinha fé, que eu era burro, e que um burro tem que acabar mesmo desentupindo fossa, na merda.


As minhas tias, junto com a minha mãe, me protegiam, falavam por mim, porque eu não queria magoar o meu avô, não queria dizer para ele eu posso até estar desentupindo fossa agora, mas não estou pedindo nenhum dinheiro para você, nem um centavo. E mais: o dia que eu ficar bem, vou continuar te amando do mesmo jeito, tanto você quanto todo mundo presente aqui – era o que eu tinha vontade de dizer. Isto porque meus tios, meus primos e até mesmo meus sobrinhos não tinham respeito algum por mim.

Certa vez, um deles, que mal sabia falar, que nem pescoço ainda tinha, falou-me: você é um derrotado. Eu perguntei: o quê?! Um derrotado. Quem disse isso para você?, perguntei, perplexo. Meu pai, respondeu, o menino. Guardei isso para mim. Por vários dias, enquanto desentupia fossa e engolia merda para sobreviver, lembrava dessas palavras vinda de um sobrinho. Foi quando decidi sair da merda sem esperar por um emprego como administrador.


Passei a guardar dinheiro, a cobrar um pouco mais caro pelos meus serviços, e pensar num negócio para abrir.Um restaurante? Uma pizzaria? Uma loja de sapatos? Uma sorveteria? Pensei, pensei e veio a idéia de montar uma auto-fossa, já que eu estava no ramo e entendia muito bem como tudo funcionava. Três anos depois, fundei a minha companhia de esgotos, prosperei, comprei casa, carro, casei, tive dois filhos.Não facilito nem um pouco a vida para eles. Não dou nada de graça. Nem empresto dinheiro, mas dou oportunidades. Primeiro, as ruins, que é trabalhar como todos os desentupidores de fossa de minha campainha; depois, as boas. Se trabalham, ganham. Se não trabalham, não ganham. E assim é a vida. Nada cai do céu. O segredo é esse. Encarar de frente a merda da vida, pegar o que ela nos oferece, e fazer dela uma grandiosa obra de arte. O resto, é choro e ranger de dentes. É migalhas. É viver sozinho. É passar fome, é ter sede. É querer ser gente mas não ser. Glauber da Rocha

Postado por Glauber da Rocha |

achei minha senha! estou de volta! té mais!

10:31

SOU UM HOMEM ROMÂNTICO, EU JURO!

Postado por Glauber da Rocha |


PODE não parecer, mas sou um homem romântico. Tudo o que faço, faço visando o final feliz. Está certo que a maioria delas não entendem – as que entendem vivem mil vezes mais felizes, porque compreenderam o mistério dos homens... De todo modo, entendendo ou não, faço o que deve ser feito, de acordo como a vida é. Então, quando começam reclamar que não dou flores, logo falo para elas:

– Quer flores? Por que não planta? Olha o tamanho do quintal... É só ir lá na floricultura, comprar sementes, e plantar... Fácil, não? Se quiser o dinheiro, toma aqui...

– Grosso – dizem as que não entendem...

Não sou grosso, sou romântico. Faço tudo pelo final feliz. Até faço questão de comprar as sementes, se elas ficam muito aborrecidas. E ainda as rego diariamente, se for o caso! Mas o que não faço é comprar um buquê para elas enfiarem o nariz na vaidade! Não compro, não compro, não compro – exceto no aniversário delas e no dia dos namorados...

Faço quase o mesmo quando elas começam a pedir elogios em excessos. Digo em excesso porque é assim mesmo, literalmente. Tem dias que não basta dizer que elas estão lindas: tem que jurar de pé junto! Eu vou me cansando, não me sujeito, não me subordino. Pode ser a mulher que for! Eu vou ficando com raiva, ando de um lado para outro, respondo mal, grito – e quando vejo que ainda não foi o necessário, digo:

– Quer que eu compro um cachorro para ficar lambendo teus pés? Eu compro! Compro até dois. E da raça que você quiser... Você quer um Poodle? Eu te dou um Poodle... Você quer um Yorkshire Terrier, eu te dou um Yorkshire Terrier... Até um Briard eu te dou, se for o caso...

– Seu bruto!

Não, não sou bruto: sou romântico! Não vou passar a minha língua no desinteresse dela... Deixo que os cães façam isto por mim. E até adestro os amiguinhos! Ensino-lhes: cãozinho, quando fulana ficar carente, precisando de elogios, vai até o pezinho da madame e lambe! Lambe-o devagarzinho, para ela sentir-se importante! Mas, cãozinho querido, não se ilude: você nunca passará disto, de cãozinho! E não se espante se um dia ela te trocar por um outro, por um outro que não lhe lambe o lindo pézinho...

Glauber da Rocha.

12:53

Prontinha, prontinha, mas só sexta!

Postado por Glauber da Rocha |

Prontinha a crônica para sexta-feira!
Aguardem!
Não é porque escrevi não - eu já escrevi um monte de coisas que simplesmente detestei - mas é que ela ficou bacaninha mesmo, quase educativa...
háhá

19:45

Agora toda sexta!

Postado por Glauber da Rocha |

Bom, à partir de hoje, toda sexta estarei aqui.
Os textos serão mais pessoais, mais diferentes.
A literatura que fique no papel...
E para começar, logo à baixo já tem um inédito!

19:35

NO SITE DE RELACIONAMENTOS.

Postado por Glauber da Rocha |

Meses atrás, entrei num site de relacionamentos. Após responder às perguntas, meu perfil apareceu da seguinte maneira:


Glauber da Rocha, 28 anos, Campo Grande, Brasil.
A meu respeito: sou ninfomaníaco, imoral, anarquista e mentiroso. A minha posição predileta é o 69; seguida daquela que a gostosa fica de quatro.
Relacionamento: sou solteiro.
Sexualidade: Sou heterossexual
Aparência: 1,70 cm; 80 kg; tenho um físico médio, meus cabelos são negros e o meu pau vive sempre duro.
Vivendo: sozinho.
Filhos: não, nunca.
Cigarro: fumo um atrás do outro.
Bebida: sim, por favor....


Ao rever meu perfil, quero dizer, ao ser tomado pelo super-ego (super-ego: censura das pulsões que a sociedade e a cultura impõem ao id, impedido o ser humano de satisfazer seus desejos – inclusive os menos secretos. É a repressão, e principalmente a repressão sexual...) deletei meu perfil e fiz outro:


Glauber da Rocha, 28 anos, Campo Grande, Brasil.
A meu respeito: sou extrovertido, de bem com a vida; gosto de fazer amizades, rir, levar as pessoas à sério, a fazer o bem.
Relacionamento: sou solteiro.
Sexualidade: Sou heterossexual
Aparência: 1,70 cm; 80 kg; tenho um físico médio, meus cabelos são negros e meus olhos castanhos.
Vivendo: sozinho.
Filhos: sim.
Cigarro: odeio quem fuma.
Bebida: sou contra.

Ao deixar meu perfil politicamente correto, fui atrás dos corpos. A primeira que encontrei foi uma Daiane, muito bonita, nova, branca, cabelos negros cacheados, ar comportado.
Perfil:


A meu respeito: ... sou evangélica, alegre, meiga, sincera, simpática, mto paciente. Amo o q tenho e o q faço. Gosto de conhecer pessoas e lugares, amo sorrir, brincar, estudar... e o principal, louvar e adorar ao meu Rei Jesus!!!...
Relacionamento: Sou solteira
Sexualidade: Sou heterossexual
Aparência: 165 cm (5'5''), 68 kg (150 libras), tenho um físico médio, meus cabelos são negros e olhos marrons.
Vivendo: Com meus pais
Filhos: Talvez.
Cigarro: Não fumo
Álcool: Não

Clickei: iniciar conversa.
Glauber: oi, Daiane, vi que você é religiosa, eu também sou, será que somos da mesma igreja e não sabemos? De qual igreja você é?
Daiane: da... (não vou colocar o nome da igreja aqui, mas é uma aonde o pastor aterroriza todo mundo com o medo do Inferno)
Glauber: sou de lá; quero dizer, comecei a freqüentá-la estes dias, sou de outra cidade.
Daiane: hum, e está gostando?
Glauber: do que? Da cidade ou da igreja?
Daiane: ah, dos dois...
Glauber: ah sim, estou gostando da cidade, mas estou gostando mais ainda da igreja, muito bom lá, né?
Daiane: sim, uma benção...
Glauber: pena que ainda não te vi na igreja...
Daiane: não? Mas eu canto lá, em cima do altar... Sou do coral.
Glauber: é mesmo!... Você é a moça que canta no altar!... Me desculpe, mas é que sou míope...
Daiane: rsss...

Conversamos por meia hora, aproximadamente. No fim da conversa, combinamos de nos ver na igreja. No dia em que fui, um encosto que me acompanhava se manifestou, quebrei toda igreja – mentira, isto não aconteceu...
Lá eu fui conquistando a sua confiança – tanto a dela quanto a da mãe e do pai dela.
Dias depois, eu já era o namoradinho da garota.

– Vai Daiane, só a cabecinha...
– Não, é pecado.
– Mas eu te amo.
– Eu sei que você me ama.
– Eu me caso com você.
– Então casamos, e só depois fazemos...

Eu sei que esta cena se repetiu umas dezenas de vezes, até a bocetinha dela escorregar na envergadura do escorregador. Fodi a Daiane um monte de vezes, marquei casamento, e depois desapareci...

*a Daiane virou depressão e joelhos no chão...

Glauber da Rocha.

16:42

MEU FUSCA QUERIDO

Postado por Glauber da Rocha |


Eu não podia de maneira alguma negar o meu fusca querido para a minha filha dar umas voltas bem no dia em que ela tirou a sua carteira de habilitação, podia? Outro pai, mais firme na educação de seus filhos, negaria; deixando-a dirigir sozinha somente depois, quando estivesse dirigindo bem. Mas, como sou um pai que neste tempo havia desaprendido a dizer não, pois passei a ter medo de perder o amor de minha filha – coisa aliás muito difícil de acontecer, embora aconteça – não só dei o meu fusca querido para ela dar umas voltas como ainda lhe dei uns trocados para ela gastar à toa.

Para ser mais exato, em tempos remotos até negaria; se ela, depois dos dezoito anos de idade não começasse a manifestar as suas revoltas contra a sua mãe e eu, o pai Caxias, como ela passou a me chamar. Então, feliz da vida com o seu pai amoroso, pegou o telefone e ligou para a sua amiga, e falou: o meu paizinho querido liberou o fusca para mim hoje; às dez horas eu passo aí para te pegar, viu amiga? Hoje é dia de festa; quero dançar até de manhã...

– Até de manhã, filha?

– Relaxa, pai, sei me cuidar.

Tive vontade de dizer para a minha filhinha do coração que ela não bebesse; mas, veja bem, os nossos filhos geralmente são aquelas eternas crianças que entendem apenas o contrário: se você diz não faça isso, elas vão lá e fazem. E fazem talvez nem porque são teimosas, coitadas, mas é assim que elas entendem: pelo contrário – ou não é? Dissesse não beba, ela, com toda a certeza, entenderia: beba. E encheria a cara, tomando um porre homérico, como o meu vizinho, que é professor de Literatura, costuma dizer sobre os seus excessos.

Mas antes eu tivesse falado, pois a minha filhinha pequena, ingênua e inocente, bebeu tudo quanto é tipo de bebida que esses marmanjos na noite costumam dar para as suas presas, a fim de que elas caiam mais facilmente em suas armadilhas maldosas – por mais inimaginável que pareça, também fui jovem, meu querido leitor, e como quase todos os jovens, caçava desonestamente também, fazendo uma trilha de drinks em direção à armadilha, à santa arapuca.

Lá pelas seis da manhã, ela me ligou, dizendo que entrou com tudo numa camionete 4x4 importada, e que era para correr urgentemente para lá, antes que o rapaz chamasse a polícia: fizesse isto, ela perderia a sua carteira provisória no mesmo dia afinal.

– Você está bem, minha filha? Não aconteceu nada com você? Nenhum arranhão? Deus é Poderoso!

Peguei um táxi e em menos de dez minutos já estava lá, prestando os primeiros socorros. O rapaz, profundamente injuriado, quase me deu na cabeça; mas eu, velho que sou, assumi a posição humilde, de coitado, e só não chorei na frente dele porque não se chora na frente de um homem nem em último caso: eu pago tudo, por favor, não chame a polícia, foi o que falei.

Graças a Deus, a camionete 4x4 importada dele não sofreu muito do acidente, mas, sabe como é, qualquer coisinha que acontece com uma camionete dessas é mais de mil reais para cima. Desembolsei 500 mangos; era o eu que podia, sou um simples aposentado que precisa dar de comer a três filhas, a uma esposa, e cinco netos – até netos eu tive nesta hora... O rapaz, por Nossa Senhora que está no céu, acreditou, e foi embora, com os meus 500 mangos no bolso.

Eu poderia muito bem tirar a cinta e bater na minha filhinha na frente da amiga dela; ou então, dizer um monte de ofensas, algo que a oprimisse mais uns vinte anos, como vinha lhe oprimindo desde que ela se entendia por gente; porém, dei um abraço nela, dizendo: Deus é Pai, minha filha; e bons são os anjos, que lhe protegeram.

– Hã? Como assim? – foi o que ela disse.

O meu fusca querido quase deu perda total. Não que o acidente fosse forte, e sim que um fusca quase não agüenta nada, principalmente o meu, que já tinha quase a mesma idade que a minha. Durante o dia, fiquei pensando se mandava o meu fusca querido direto para o ferro velho ou se para uma oficina mecânica. A minha esposa, sábia e inteligentíssima, aconselhou-me o ferro velho: que eu comprasse um carro novo, com ar condicionado, teto solar, combustível à gás, e air bargs.

Ferro velho nada. O meu fusca querido era o mesmo que um filho meu: desfazendo-me dele iria acabar mais infeliz que um pai rico quando deserda um dos seus. Decidi levá-lo a uma oficina mecânica, e ressuscitá-lo de entre os mortos, tal como Jesus fez com Lázaro, como sempre diz o padre da igreja perto daqui de casa quando responde, ao dono do boteco, se a cachaça está boa ou ruim.

Antes de entregá-lo na mão de qualquer um, fui a várias oficinas mecânicas, e decidi entre uma delas utilizando-me de um critério perfeitamente desastroso: deixei-o na mecânica onde tinha mais carros, pensando que por isso, logo, todavia, portanto, que o mecânico deveria ser bom...
Puro engano: a sua oficina só era lotada de carros porque ele demorava entregar o serviço...

O mecânico era uma porcaria que só vendo. Ele pegava 50% de adiantamento, gastava não sei aonde, pondo a desculpa que no aluguel e na energia elétrica do galpão. Para mim, tenho a absoluta certeza de que ele pegava esses 50% e enfiava bem no meio do rabo cheio de graxa dele: não havia outra explicação, com certeza não havia.

Engoli cargas de ódio por causa de mecânico porcaria. Ele me mandava ir tal dia e tal dia o serviço não havia nem começado. Ia no outro; no outro, e sempre assim: ele mandando voltar daqui quinze dias, daqui dez dia, daqui cinco dias, daqui três, dois, um. Foi quando comecei a desejar o mal para ele. Na sua frente, passava mil tipos de palavrões na minha cachola, que queimavam a minha garganta, a minha língua, louca para falar aquilo que considerava vir do próprio Espírito Santo. Mas, me calava, dizendo à tarde eu volto. E de tarde voltava. De noite eu volto, e de noite voltava.

Passei a observar a vida dele: no mínimo aquele porco não devia ter nem mesmo lavagem para comer dentro de casa. Alguém que tinha tudo para enriquecer, e que preferia enganar os outros, viver essa vida de sujeito desonesto. Quando chegava lá, e falava e aí?; ele logo mandava um funcionário seu pegar no maçarico e trabalhar no meu fusca. Mas, era pura enganação daquele filho da mãe de uma jararaca, porque era isso o que ele era, uma JARARACA.

Sem querer, falei: a vontade que tenho é de te esmagar.

O homem, sabido que era, ligou para a polícia, me acusando de ameaça.

A polícia apareceu em minha casa, a fim de fazer o confere.

– Não, não confere seu policial; sou um homem de bem, a única coisa que quero é o meu querido fusca de volta.

E logo em seguida, contei toda a história, tirando, é claro, a minha filha para bem longe dela.
Os policiais tomaram nota, e foram embora. A minha esposa, assim que viu eles saírem, me disse: amor, por que você não toca fogo naquela merda? Compra um carro novo, vai ser melhor para você; olha o tanto que você está gastando: saúde é mais cara do que o dinheiro.

Néscio, não dei ouvidos.

Eu queria por toda a sorte ou azar o meu querido fusca de volta. Às vezes, até sonhava com ele, algo que me dava uma felicidade infinitamente indizível: acho que nem sonhar com um carro novo seria tão prazeroso assim. Mas logo que acordava, e não via o meu querido fusca na garagem, recebia uma pontada forte no peito, que atenuava com a imagem daquela porcaria de mecânico se fazendo na minha cabeça.

– Por que não morre uma praga desta? – era o que eu me perguntava.

Não deu outra: o homem morreu.

Fiquei extremamente furioso com isto. Queria saber como que o meu querido fusca ia ficar na história.

– Não fica, disse o seu empregado; e se eu fosse você, o levaria embora o antes possível, para o seu bem.

Já estava levando o fusca embora quando de repente a polícia apareceu.

– Foi ele, seu policial, que bateu a chave de braço na cabeça de meu patrão.

– Hã? Como assim? – foi o que eu falei, para usar a expressão que a minha filha tanto gosta de usar.

– E ainda por cima é cínico – disse esse discípulo da JARARÁCA.

Os policiais acreditaram. Me levaram em cana; mas eu disse e repito: Deus é Pai, e me tirou dessa fria. Logo depois, me soltaram, pedindo mil desculpas; que a polícia, por ser feita de homens, erra; que não existe um ser humano que não comete erros; que somos limitados, finitos; que não adianta estufar o peito e dizer eu sou, eu posso, eu faço, que...

– Ok, ok, ok, estou dispensado?

– Sim senhor.

Porque no fim das contas nós, homens, sempre acabamos fazendo o que a mulher deseja, toquei fogo no meu fusca querido, e comprei um carro do ano. A marca? Se eu disser talvez vocês não vão acreditar. Sim, o novo fusca. Comprei o novo fusca, esses que lançaram acho que no ano 2000 para cá. E a minha filha, por mais que pede com os olhos para dar uma volta nele, não o faz com palavras – se fizer, ela sabe o que o pai vai falar, que é NÃO!

18:05

MUITA IRONIA E POUCA VERGONHA NA CARA

Postado por Glauber da Rocha |

a Hugo Carvana


Primeiro a idéia aparece, sempre de maneira alegre, que me faz ficar rindo por alguns instantes, dias, semanas. Depois, como que naturalmente, ela vai crescendo, aumentando, ganhando proporções, se encaixando. As personagens vão surgindo, e eu penso num ator, em outro. Quando vejo, tanto o filme quanto o elenco estão prontos aqui, na minha cabeça.
Fico vivenciando tudo isto por dois, três, até quatro anos, que é um processo de amadurecimento. Ninguém pode ter uma idéia hoje e realizá-la amanhã. Muitas delas são falsas. Para as que persistem e perseguem, e ficam conosco por muito tempo, a realização é quase certa. Depois, escrevo o roteiro, desenho os quadros, elaboro o projeto e vou atrás das pessoas. É um trabalho chato, pedir?! É! Porém, vale à pena.
Mas tudo flui facilmente, ainda mais quando o projeto é para um filme de comédia. Não que fazer comédia seja algo fácil, como pensam muitos. Pelo contrário: fazer rir é mais difícil que fazer chorar, principalmente nos dias de hoje, com tantas injustiças. É mais fácil no sentido de levantar a grana, de conseguir o patrocínio.
Se vai fazer aquela aula de filosofia, de história, de sociologia para o empresário ocupado, demonstrando como que as pessoas sofrem por causa de uma coisa ou outra, ele vai dormir em cima da mesa, entediado. Mas se conta a história do malandro, do golpe, do dinheiro em jogo, das mulheres gostosas, o homem se levanta, aperta a mão, já agradecido, e desembolsa.
Com o dinheiro no bolso, vou atrás da formação da equipe. Na escolha, fico apenas com os profissionais de alto nível. Não gosto de amadores, de amadorismos. Nem de gente que está aprendendo. Há muitos lugares para os aprendizes. Então, começa a filmagem. O filme, por ser uma comédia, tem que ser feito num clima divertido. O responsável por este clima, querendo ou não, é o diretor. Se ele é um intelectual, ou um revolucionário, ou seja lá o doido que for, a coisa não flui.
Aliás, não suporto homem que toma bonde, que vive bondeado, que faz o estilo sofredor, daqueles que sofrem, e que pensam, e se não der, e se... Com esse tipo de diretor, como é que pode sair um filme divertido? A coisa tem de vir de fora para dentro. O responsável por este fora é o diretor. Eu faço isto. Quando não estou brincando com tudo e com todos, ou eu canto ou eu danço. O nome disto é molecagem. Quando um homem deixa morrer o moleque dentro de si, é porque já morreu a alegria, o entusiasmo e a beleza.
Fico sério apenas na gravação das cenas, que é a hora em que por mais engraçada que seja a encenação, o ator tem que manter a linha. Numa palavra: em todo o processo de um filme, desde a filmagem à sua estréia nas telas dos cinemas, eu me ocupo, e não me pré-ocupo. Para cada dia, as ocupações do seu dia. O depois; é depois. Se der certo, deu. Se não der certo, fazer o que? Lamentar?
Eu não posso lamentar. Sou um comediante, e não um trágico. O cinema, a meu ver, não pode viver de tragédias. Não acredito que o cinema ou a literatura possam transformar o mundo. Não há santidade na arte, há vaidade, isto sim. Satisfação do ego. Por mais que queiram camuflar a vaidade, ela aparece. Na vitória ou na derrota, ela aparece, inevitavelmente. Então, para que se enganar?
Mas se tantos diretores, principalmente os jovens, querem sofrer, que sofram – só não me chamem para sofrer junto. Não é a minha praia. Nela não tem os malandros, não tem os vagabundos, não existem os sem-vergonhas na cara. Ninguém fuma, ninguém bebe, ninguém dança. Eu gosto da dança. Da ironia, do entusiasmo. Eu gosto principalmente da personagem tipicamente brasileira, do homem que quando deve se esconde, do sujeito safado, da mulher dissimulada, em cima dos sapatos, dando seus ataques de histerias.
É banal? É. Mas os meus cabelos estão brancos sem precisar de muito sofrimento. Não sou um homem de pretensões, porque não adianta. Todos no Brasil e no mundo sabem o que é certo e o que é errado. Onde se vai, escuta-se a palavra amor, honestidade, justiça. E te pergunto: o mundo é paz e amor? Estamos sendo honestos e justos o tanto quanto falamos sobre isto? Se filmes transformassem realidades, tal como esses jovens acreditam, no Brasil não haveria tanta corrupção, haveria?
Eu já fui um sujeito piedoso, cheio de pudores, preocupado com a existência ou não de Deus, com valores morais, querendo por toda lei fazer um mundo melhor. E o que eu ganhava com isto? Hã? Só depressão. Não que a religião seja algo ruim. Para falar a verdade, graças a ela a vida ainda é possível. Não sou contra. Mas, em cada um ela age de um modo. No meu caso, ela me fazia um negador de suas paixões, e vivia deprimido.
Naquele tempo não era essa palavra que usávamos. A palavra era melancolia. E o homem melancólico, chamávamos de bondeado. O individuo das crises existenciais, sem amores, sem amantes, sem vida. Não gosto disto, nunca gostei. E lamento que tantos jovens queiram passar por este sofrimento, com os seus filmes densos, cheios de pausa, onde cada cena existe uma reflexão para a vida inteira. Não é comigo. Gosto do ritmo rápido, das piadas curtas mas inteligentes, uma atrás da outra. Gosto dos musicais.
Também não sou chegado em violência, na estética do sangue, da crueldade. Os meus heróis nada têm a ver com Sylvester Stallone, com o capitão Nascimento. Os meus heróis olham uma boazuda cruzar a rua e vão atrás. Tem gingado, estilo; falta-lhes a vergonha na cara. Geralmente, não trabalham, e quando trabalham, não são importantes. Não trabalhar, para muitos deles, é uma questão de princípios. Há toda uma reflexão filosófica por detrás de um vagabundo.
Já outros, são charlatães. Mas não o charlatão como muitos por aí, pós-modernos, gananciosos, que querem enganar a muitos de uma vez só. Os meus charlatões enganam de um a um. Para eles, é uma forma de sustento e de diversão. Não são de olhar para cima querendo ocupar o lugar mais alto, nem de olhar para baixo com orgulho, considerando melhor que os outros.
Já as minhas mulheres, essas são nervosas, neuróticas, fazem espetáculos. Mas amam, acima de tudo. Elas estão em todos os lugares: em bares baratos, em bares caros, ao lado de um magnata, de um bandido, ou até mesmo de um trabalhador. Eu acho que meus filmes ajudam as pessoas a enxergar melhor à sua volta. O Brasil é igual em todos os lugares, tanto em São Paulo como no Rio. As diferenças são muito poucas.
Uma palavra para o sujeito ser feliz, nos dias de hoje? Eu esqueci seu nome. Qual é mesmo? Ana? Ana Andrade? Você tem quantos anos, Ana? Vinte e seis? E linda deste jeito? Não se acanhe. Em linhas gerais, Ana, só há uma maneira de ser feliz no Brasil hoje, e essa maneira é ter muita ironia e pouca, mas muito pouca vergonha na cara...

Glauber da Rocha

15:16

publicando de novo

Postado por Glauber da Rocha |

Revisei o conto "A Tração Manual".
Acho que ficou melhor que o outro, mais verossímil...

15:14

A TRAÇÃO MANUAL.

Postado por Glauber da Rocha |

Eu tinha um pênis minúsculo, menor que o celular de última geração do sr. Johnson. Desde pequeno tive vergonha dele, principalmente depois da observação que uma amiga de minha mãe fez ao vê-la me dar banho: ei Neuza, o pingolinho de seu filho não vai crescer não? Não é melhor levar ele num médico, para ver isso?
Eu tinha dez anos de idade quando isto aconteceu. O efeito desta pergunta foi tão traumático que à partir de então nunca mais fiquei pelado na frente de alguém até conhecer a Patrícia e a dona Suzana.

* * *

Na adolescência, meu pênis continuava quase do mesmo tamanho quando deste triste episódio, apesar de passar uma boa parte do meu tempo esticando-o, para ver se o bendito crescia. Fazia isto enquanto estudava, trancado no meu quarto. Mas, de nada resolvia, e então parei.
Depois, conheci a Patrícia. Durante um ano de namoro não deixei ela nem encostar-se ao meu membro: sempre que ela ia com a mão, eu esquivava, pois tinha medo dela acabar o namoro por causa do tamanho. Até que finalmente, resolvi deixar. Patrícia pegou, riu, disse olha que bonitinho, e quando vi, já estava com ele dentro da boca.
Foi neste dia que perdi a minha virgindade. Ela gostou, e a partir de então, passamos a transar quase todos os dias. Contudo, era somente na frente dela que eu tinha coragem de me despir, e quando aparecia uma oportunidade de transar com outra garota, eu fugia.

* * *

Graças a Deus, apareceu a dona Suzana em minha vida, para reverter de uma vez por todas essa minha situação. Estávamos, eu e a Patrícia, na frente de casa, namorando. De repente, um carro importado parou e uma mulher loira, de olhos azuis, aparentando ter uns trinta anos, nos chamou, pedindo informação de uma rua ali no bairro.
Pedi para a Patrícia dizer mas ela se recusou.
Falei então:
– Você segue em frente duas quadras e vire à direita; depois, à esquerda, é ela.
– Ai moço... será que vou saber?
– Vai sim – eu falei, porque só se fosse uma burra para não saber.
– Você não quer me levar até lá? Eu trago você de volta. É rapidinho...
Olhei para a Patrícia e ela disse vai, Alfredo.
Fui.
Na volta, a dona começou a dizer que eu era muito bonito, e me deu o seu telefone. Coloquei-o no bolso, por educação, e disse: qualquer coisa eu ligo. Na frente de casa, saltei do carro rapidamente, quase me esquecendo de despedir-me.

* * *

De noite, na cama, antes de dormir, comecei a pensar na dona Suzana. Imaginei-a nua, fiquei excitado, peguei no meu pinto e comecei a mexer nele. Logo depois, fui me masturbando. Enquanto me masturbava, sofria com este conflito existencial: estou me masturbando por alguém que posso ter de carne e osso... E tudo isto por vergonha!
Assim que me dei conta disto, broxei. Revoltado, falei para mim mesmo: vira homem, Alfredo, e come essa dona!
Noutro dia liguei para a dona Suzana, e marcamos um encontro, na casa dela.
Fui.
Chegando, dei de encontro com uma mansão.
– A dona Suzana está? – perguntei, na portaria.
– Você é o Alfredo?
– Sim, sou eu.
– Entre. Ela está lhe esperando – disse o porteiro.
Entrei.
Vi um grande jardim, uma pequena rua que dava de frente à porta de entrada da casa dela; e, na frente dessa porta, ela, vestida com um roupão.
– Alfredo?
Me abraçou, pegou na minha mão e me levou direto para a sua suíte. Lá ela tirou o roupão e ficou nua. Olhei para o seu corpo e vi que estava tudo em ordem. Mesmo assim, não consegui ficar excitado, pois estava nervoso, a minha mão suava e meu coração batia mais forte do que quando jogava futebol de salão na escola.
– Não tenho o corpo de uma jovem? Peque aqui, nos meus seios, para você ver como eles são duros...
Peguei.
– Pegue na minha bunda, agora.
Obedeci.
Enquanto pegava em sua bunda, em seus seios e em sua coxa, ela falava: sou filha de italiana com francês; mas, a mãe de meu pai e a mãe de minha mãe eram negras; eu tenho sangue de negro; a minha pele jamais poderá ser esticada, tente esticá-las.
Tentei.
A pele dela escorria, escorregava.
– Não falei?
Quando vi, estava abraçado com a dona Suzana, lhe beijando. E, ainda assim, sentindo o seu calor, a sua segurança, o meu pinto não subia de maneira alguma. A dona Suzana percebeu, e para me deixar excitado, tirou a minha roupa.
Ao me ver nu, com um pinto do tamanho do pinto de uma criança de cinco anos de idade, ficou desanimada. Afastou-se, sentando na beira da cama, e me perguntou: por que você não me falou antes?
– Falou o que? – perguntei, já sabendo da resposta.
– Que ele é pequeno...
Nesse momento, tive vontade de sair dali correndo, mas nem isso consegui. Chorei, apenas. A dona Susana se apiedou e me chamou para o seu colo, tal como a minha mãe fazia quando eu era criança.
Fui, e com o calor de seu corpo, me dando um aconchego maternal, comecei a desabafar.
Falei para ela que nunca ficava pelado na frente dos outros, nem de garotas e piorou de garotos; que eu ficava pelado somente na frente da Patrícia, minha namorada.
Disse para ela que por causa do tamanho do meu pênis eu não freqüentava clubes de lazer, não ia à praia e odiava o inverno, pois no frio o meu pinto desaparecia. Contei-lhe também da vez que um colega abaixou as minhas calças no recreio da escola, e que todo mundo viu, principalmente as meninas, e que, a partir desse dia ganhei uma porrada de apelidos: piquinês, japa, minhoca, e etc.
Ao dizer isso, a dona Suzana riu.
Fiquei com raiva. Saí de seu colo, reclamando puxa vida, eu aqui abrindo o meu coração para você e você ri? Que mundo cruel!
Ela, no entanto, disse não estou rindo de você, seu bobo: estou rindo porque eu tenho a solução para o seu problema!
– Tem?
– Eu não. O sr. Jhonson, meu marido.
– Marido? – indaguei, apavorado.
– Não se preocupe, somos um casal aberto.
Fiquei mais apavorado ainda.
– Por que seu marido?
– Porque foi ele quem descobriu essa técnica, a de aumentar o pênis e dá-lo mais vigor, a fim de que o homem não goze em menos de uma hora – disse ela.
Fiquei ressabiado, e lembrei-me daquelas bombinhas em revistas pornográficas – não sei aonde, li ou ouvi dizer que aquilo causava uma impotência sexual desgraçada nos homens, irreversíveis.
– Não é bombinha, é?
– Nada! Melhor que isso. É uma técnica natural, chamada de a tração manual!
E me explicou.
Disse que quando o homem tem ereção, o sangue segue para três partes do pênis. Quem segura esse sangue é o corpo cavernoso, os quais só podem encher de acordo com o tamanho do pênis. Aumentando portanto esse corpo cavernoso, aumenta-se também o membro masculino. Para isso, basta aplicar a tração manual nele, e logo o pinto do cara se transforma num cacete de dar inveja.
– E sobre o cara ficar mais de uma hora sem gozar? – perguntei.
Disse ela: ao redor do ânus existe um músculo chamado púbeo-coccígeno. Quando o homem tem um orgasmo, ele se contrai repetidas vezes. São essas contrações que joga o esperma para fora, através do canal uretral. A maioria dos homens tem esse músculo pouco desenvolvido, e o resultado disso são ereções medíocres, ejaculações precoces, baixo vigor sexual. Assim, se exercitá-lo, ele ficará mais forte, facilitando a ereção e o controle ejaculatório.
– Posso-lhe mostrar esse músculo? – disse a dona Suzana, após essa explicação.
– No meu cú ninguém toca! – falei.
– Deixa de ser machista, Alfredo. E não é no seu cú, é ao redor de seu ânus...
– E não é a mesma coisa?
– Não. Deite aí. Vou mostrá-lo.
Deitei, de barriga para cima, é claro. Ela então colocou a mão em meu músculo púbeo-coccígeno, e meu pinto endureceu. Tive medo de ser um veado gazela, com isso.
– Se fosse um homem passando a mão aqui tudo bem, até concordo que você poderia ser um veado, Alfredo – disse ela, me aliviando – e; apertando o meu músculo púbeo-coccígeno, falou: sentiu?
– Senti – eu disse.
– Tente apertá-lo.
Apertei.
– Agora aperte trinta vezes.
Apertei trinta vezes.
– Gostou do exercício?
– Gostei.
– Vou ter dar o livro que meu esposo publicou. Nele contém vários exercícios para o aumento peniano e para o controle ejaculatório. Te dou seis meses no máximo para você ficar com um cacete enorme e com um vigor sexual de deixar qualquer mulher louca por você – disse ela, indo de encontro ao livro, que estava dentro da suíte deles.
– Toma, é teu, Alfredo.
Peguei o livro e fiquei olhando para ela com aquele olhar de quem pergunta: e agora? Mas a dona Suzana, em sua sabedoria, fingiu não me compreender. Vendo que por ela tudo estava acabado, mendiguei por outro encontro.
– Só se o seu pinto se transformar num enorme cacete.
Me imaginei com um pênis enorme, quando ela disse isto. E perguntei:
– De quantos centímetros?
– No mínimo dezoito.
– Dezoito?! – eu chiei.
– Sim, Alfredo, no mínimo dezoito...


* * *


Voltei lendo o livro dentro do ônibus. Os exercícios eram da seguinte maneira: primeiro, o alongamento; em seguida, a compressa quente; depois, a lubrificação e finalmente a aplicação manual, que deve ser finalizada com outro alongamento e com outra compressa quente. Em casa, a primeira coisa que fiz foi ferver um pouco de água e me trancar no banheiro. Com o livro em cima da pia, comecei o alongamento, esticando o pênis por dez segundos e soltando-o.
Fiz isto dez vezes, para depois pegar o pênis e rodá-lo dez vezes para direita e dez vezes para a esquerda. Quando acabei, meu pênis estava flácido, semi-ereto. Peguei uma toalha de rosto, embebi-a na água fervendo e a envolvi sobre o pênis e o escroto. Senti queimar a minha pele mas não recuei, seguindo as instruções do livro. Só vi a minha careta na frente do espelho, gemendo de dor.
Levei dez minutos nesta compressa. Depois, peguei um lubrificante que tinha ali e passei em todo meu membro. Agora estava pronto para aplicar a tração manual! Sentei-me no vaso sanitário, e enquanto apertava com uma mão a base do pênis, fazendo um sinal de ok, com a outra eu ia ordenhando. Fiz umas trezentas ordenhadas, o pênis ficou grande, trabalhado, e então fiz as poderosas esticadas, o extensor de cumprimento, os aperto e flexões e etc., e etc...

* * *

A Patrícia morava numa edícula no fundo da casa que ficava bem de frente à minha. Pagava aluguel, ou melhor, eram os pais que arcavam com as suas despesas, visto que ela veio para a capital porque na sua cidade não havia curso de psicologia. Só estudava, nada mais.
Nessa época, eu não fazia curso algum, nem estudava, porque trabalhava para ajudar em casa. Quando nos vimos, logo começamos a conversar, e fiquei apaixonado por ela, namoramos e fomos para cama, como o leitor já sabe.
Apesar dela dizer que gostou de transar comigo, ainda assim tinha lá as minhas dúvidas. Inseguro, sempre perguntava para ela entre uma foda e outra: você gostou? De tanto fazer esta pergunta, um dia a Patrícia se aporrinhou e disse: porra, Alfredo, você acha que estaria transando contigo se não gostasse? É claro que eu gosto! Na verdade, eu amo! Você é gostoso, sabia?
– Mesmo com o pinto pequeno?
– Mesmo.
Para a Patrícia, graças a Deus, tamanho não era documento...


* * *

Passei a aplicar a tração manual todos os dias da semana, exceto no domingo, que tirei para o descanso. No começo, qualquer coisinha dava vontade de gozar, eu forçava o músculo púbeo-coccígeno, mas a porra saia que nem água da mangueira do corpo de bombeiro. O pênis, para ajudar, não crescia um centímetro se quer, e fui desanimando. Mas, um desejo enorme de comer a dona Suzana foi crescendo, e eu fui me motivando, fazendo com esforço os exercícios, e logo, logo aprendi a segurar o gozo, meu pau foi aumentando, ganhou força e vigor.
A Patrícia, com estes meu ganhos, acabou não gostando. É claro que no começo ela nem notava diferença; entretanto, depois que passei a controlar mais as minhas ejaculações, ficando às vezes duas horas em cima dela, a Patricia passou a reclamar. Havia vezes que ela, cansada de tanto ser fodida, parava no meio da foda e reclamava, dizendo que havia algo de errado comigo. Eu dizia que não, que se ela dissesse isto antes, há uns dois meses atrás, até que concordaria: não, não há nada de errado comigo, eu disse. Patrícia acreditou, mesmo desconfiada; contudo, semanas depois, não teve mais como enganá-la: num dia, quando no começo de uma foda a Patrícia estava com pênis nas mãos antes de levá-lo à boca, ela disse:
– Alfredo?
– Que é?
– O seu pinto está maior?
– Impressão sua – falei.
– Ele está ficando maior sim! O que você anda fazendo, Alfredo?
– Nada.
– Como nada? Deite aí na cama, para eu ver.
Deitei, de barriga para cima.
– Está vendo? Antes ele não alcançava o seu umbigo, agora, ele ultrapassa...
– Sempre alcançou. Você que nunca viu...
Por um instante, quase consegui fazer a Patrícia acreditar. Mas, como quem tem intuição, ela protestou:
– Você vai me dizer o que anda fazendo, porque se não eu termino o nosso namoro agora!
– Não ando fazendo nada!
– Como nada? Antes não doía, agora a dor está insuportável! Se você não parar já com o que anda fazendo, nunca mais transo contigo! – disse ela.
Ouvindo isso, entrei em desespero. Passei por um dia inteiro pensando sobre essa ameaça, e decidi continuar os exercícios, porque queria por toda lei comer a dona Suzana – esta minha vontade, caro leitor, já havia virado uma grande obsessão! Enquanto isto não acontecia, fugia da Patrícia, a fim dela não saber que eu estava continuando...


* * *

Assim que alcancei os dezoito centímetros eu fui à casa da dona Suzana. Ela, traindo a sua promessa, disse que só iria para cama comigo se meu pau ficasse pelo menos um centímetro maior que o de seu marido, o Sr. Johnson. Protestei, mas não teve acordo: era pegar ou largar. Peguei; contudo, com uma única condição: que eu pudesse visitá-la quando quisesse, mesmo não tendo os vinte e um centímetros que ela queria.
Ela me pediu uma boa razão para aceitar a minha proposta e eu disse: preciso vê-la, para não perder a motivação. Dona Suzana aceitou, e eu passei a freqüentar sua casa quase todos os dias. Foi quando acabei conhecendo o sr. Johnson. Ele estava de viagem este tempo todo, a trabalho, divulgando o seu livro: a tração manual. Não foi com a minha cara, e logo vi que o papo de casal aberto era furado, coisa que só funciona na Internet.
Nos primeiros dias depois de me conhecer, ele me tolerou. Mas com o tempo, ele começou a pegar pesado. Primeiro, foi desqualificando a minha posição social e cultural; depois, chegou a falar em crueldades de maridos ciumentos; e finalmente, perguntou meu preço. Eu falei que não tinha preço e ele me ofereceu dez mil para cair o fora. Porque ainda não havia comido a dona Suzana, neguei.
– Você já não está com o pau grande? – disse ele.
– Estou, mas a obra ainda não está pronta.
O sr. Johnson, ao ouvir isto, balançou vagarosamente a cabeça, e vendo que eu estava convicto, começou a discursar:
– Eu sei por que você diz isso... A Suzana me contou. Falou que só vai transar com você depois que você tiver um centímetro a mais que o meu. Mas sabe de uma coisa? Eu havia parado de fazer meus exercícios, mas só porque a Suzana te pediu para ter o pau maior que o meu eu voltei. Agora, se você tiver vinte e um eu terei vinte e dois. Se você tiver vinte e dois eu terei vinte e três. Se você tiver trinta, terei trinta e um, trinta e dois, setenta centímetros se for o caso, mas não deixarei você me deitar com ela!
Eu senti o peso da ameaça, me vi com um pinto maior que o do Kid Bengala, por pouco me deixei ser convencido, entretanto, eu queria comer a dona Suzana a todo custo, devido a minha obsessão que naquele momento não devia ter mais cura.
– Quer saber? – disse para ele: – foda-se você!
Ficou com raiva, mas se conteve. Depois, num tom de voz mais calmo, apelou para a sua descoberta.
– Sabe, Alfredo....Você pode até ser um cuíudo... mas jamais será um homem como eu.... E sabe por que? Porque eu fiz um grande bem à humanidade.... Você sabe o que é isso, humanidade?
– Sei.
– Pois então... Que grande bem você pode fazer à humanidade, hã? Nenhum! Nem estudar você estuda... Então... eu serei melhor do que você sempre... entendeu? Sempre...
– Entendi – falei, dando de ombros.


* * *

A minha obsessão pela dona Suzana foi colocada à prova. Foi a Patrícia a responsável por isso. Depois de um mês fugindo dela, ela conseguiu me pegar. Fomos para cama; e ela, ao reclamar mais uma vez que estava doendo, me obrigou a contar tudo.
Não sei por qual motivo, se porque estava decepcionado ou louco, resolvi falar tudo o que estava acontecendo comigo.
– Aquela dona do carrão? – disse ela, pasma.
– Sim, ela mesma.
– E vocês já transaram?
– Não.
– Que pergunta idiota a minha... É claro que transaram!
Expliquei à Patrícia porque ainda não havíamos transado, mas ela não acreditou, achando esta minha estória inverossímil de mais.
– É a mais pura verdade! Ela me disse: Alfredo, só quando você tiver um pau com um centímetro a mais que o de meu marido que vamos transar!
– Não acredito Alfredo. Não tenho vocação para burra, nem muito menos para corna...
Fiz silêncio, pensando sobre toda essa situação. Por fim, quebrei o silencio e perguntei para ela:
– Você me ama, Patrícia?
– Te amo.
– Então se você me ama, deixe-me transar com ela só uma vez! Eu lhe imploro. Não a amo, mas não conseguirei viver sem fazer isto!
– Nunca! – disse ela – E fique sabendo: se você for mais uma vez lá, está tudo acabado!
Ao ouvir isso, vi que tinha que me decidir. Para não enganá-la, falei:
– Está bem, então está tudo acabado...


* * *

– Você conseguiu, Alfredo, está com um centímetro a mais que o meu marido – disse a dona Suzana, dias depois.
– Então agora podemos ir para cama – falei.
–E se eu não quiser? – falou ela.
Esperando pelo pior, eu disse comigo mesmo: se você disser que não quer, eu te como à força, mas não fico na vontade.
– Mas eu transo! – falou-me.
Isto me deu uma alegria dos diabos: Sr. Johnson? Você perdeu...
– Vem, me coma, me foda com esse pau grande, seu pausudo! – disse ela.
Tive uma ereção fodida. Mas, ao ir para cima dela, lembrei da Patrícia: enquanto esta me amava de verdade, a dona Suzana só queria sexo, e estava tudo consumado.
Peguei as minhas roupas e comecei a me vestir.
– Onde você vai?
– Embora.
– Por quê?
– Porque não sou uma máquina de fazer sexo. Não sou um produto de laboratório. Eu sou o Alfredo, que ama a Patrícia, entendeu bem?
– Não, não entendi. Você não pode fazer isto. Volte aqui, seu mal agradecido!
– Vai a merda – falei, saindo do seu quarto.
Ela veio atrás. Desceu as escadas e desistiu de mim assim que saiu pela porta da frente de sua casa. O Sr. Johnsons estava ali parado, me olhando. Lá fora, ao passar pelo portão, ainda pude ouvir ele dizer:
– Viu o que dá, Suzana, fazer o bem para os outros?...
Na rua, só pensava na Patrícia. Peguei o ônibus e voltei para casa. Estava quase de noite. Quando cheguei, fui direto para a edícula da Patrícia. Um rapaz abriu a porta. Entrei, perguntando por ela.
– No banheiro.
– E o que você está fazendo aqui?
– Estou ficando com ela – disse-me.
Olhei em volta, e vi um litro de vinho em cima da mesinha que ficava na frente da televisão. Vi duas taças cheias.
– Estão tomando vinho, é?
– Vamos começar, se você cair o fora – falou ele.
Ao ouvir isso, dei um soco na parede.
– Ir embora?! Você sabe com quem está falando?!
– Não, não sei.
– Você está falando com o homem que paga o aluguel desta edícula, entendeu?
– Você é o pai dela?
– Que pai porra nenhuma!
– Ela disse que é o pai dela quem paga!
– E você acreditou? Que ingênuo você... É isso o que dá acreditar nas mulheres... Quantos anos você tem, garoto?
– Dezoito.
– Quer passar disto?
– Quero.
– Então vaza, moleque! Porque se não te dou um tiro! – falei, blefando.
O cara assustou, e apavorado, saiu correndo. Sentei-me no sofá, e peguei uma das taças de vinho. Bebi um gole. Depois, falei que nem o sr. Johnson:
– Esses moleques pensam que são alguma coisa... Que bem eles podem fazer à humanidade? Que bem?
A patrícia apareceu.
– Cadê o Ricardo?
– Que Ricardo?
– O cara que estou ficando.
– O cara que você está ficando sou eu, seu namorado – falei me levantando, para pegá-la à força.
Patrícia tentou resistir, mas logo cedeu. Quando vi, estava me beijando como antes.
– Não transei com ela – falei.
– O quê?
– Isso mesmo, não transei. Na hora h, lembrei-me de você, do seu amor por mim. E daí eu disse para a dona Suzana: dona Suzana, vai à merda!
– Você fez isso?
– Fiz!
– Então diz que me ama.
– Eu te amo.
– Me dá um beijo.
Beijei-a, e senti as lágrimas da Patrícia em meu rosto. Depois, fomos para cama, amarmo-nos como antes, e felizes como no princípio...

06:34

A REALIZAÇÃO DE UM SONHO.

Postado por Glauber da Rocha |



É um homem perverso, um iníquo
Aquele que caminha com falsidade na boca:
Pisca com os olhos, bate com o pé,
Faz sinais com os dedos...
– Provérbios, VI, 12-13.


De vez em quando, sempre aparece um pescoçudo que até então nem pescoço tinha. Ele começa timidamente, ganha a confiança de um, de outro, e quando consegue doze fiéis à sua volta, logo se torna um mestre com mil discípulos na rabieira, dispostos a fazer tudo o que ele manda. Foi assim com Otávio Nunes, um cidadão daqui da cidade onde moro, chamada Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul.
Naquele tempo eu era um dos muitos vereadores que queria ser prefeito. O Otávio Nunes nem existia ainda, era apenas um entre milhares de cabeçudos que andam à pé pela cidade, ou de ônibus. Está certo que eu andava à pé e tomava ônibus também, mas não era um cabeçudo, e sim um vereador, de terno e gravata, ciente das organizações sociais, de leis, de principados e potestades. De repente, o Otávio Nunes.
Havia mil discípulos junto com ele na Praça Ari Coelho, dizendo: estamos convocando os candidatos a prefeito para uma maratona de provas onde o povo poderá saber quem realmente é capaz de fazer de tudo por nossa cidade, de amá-la. O jornalista perguntou: que tipo de provas? São várias. A primeira delas, por exemplo, é ver qual dos candidatos fica mais tempo limpando o banheiro aqui da praça mesmo, que é um fedor insuportável.
– E as outras?
– Ver quem fica mais tempo morando na vila Canguru, sem direito à carro, ficando dependente só do ônibus.
– Tem mais?
– Tem sim. Tem a prova para ver quem trabalha mais tempo para esses sujeitos ricos em troca de um salário mínimo, e se ele consegue sobreviver com ele.
– Hum, interessante. E como será a pontuação?
– Ao vencedor de cada prova, três pontos; dois para o segundo colocado e um para o terceiro. Aquele que tiver mais pontos, a população votará em peso.
– E quem não quiser votar tendo em vista esta competição? Ou melhor: e para quem não aprova este método?
– Quem não aprova este método só pode ser um apátrida. E assim será chamado por nós, que vai ser a maioria. Todo mundo concorda e acha boa a idéia, pois somente aquele que passa pelos nossos sofrimentos poderá fazer algo justo por nós depois. Quem gosta da injustiça, não se una a nós!
– Mais alguma coisa, Otávio Nunes?
– Não, só isso. Fica aqui o convite aos candidatos. Em breve estaremos fazendo o convite pessoalmente. Por enquanto, é isso.
– Obrigado. É com você, Ricardo Freitas!
Depois desta reportagem ser exibida pela TV MORENA, houve um alvoroço no Parque dos Poderes. Primeiro, é claro, nós rimos, debochamos; mas depois que ele apareceu aqui com umas cem pessoas atrás dele, tratamos de colocar as cabeças para maquinar...

* * *

No meu partido, o candidato oficial a prefeito era o senhor Barbosa, um homem com a saúde boa, mas não apta para enfrentar os testes colocados por este Otávio Nunes. Os maiorais do partido, algum tempo depois, chegaram a pensar em não fazer parte desta maratona de imbecis, mas viram que corriam o risco de perder as eleições fatalmente. Descartaram então o Barbosa, e perguntaram se o seu Frederico encarava: eu? Limpar banheiro público? Me sujeitar à vontade do povo? São eles que têm de se adequar a nós!
Pensaram num outro, e lembraram-se do Ojeda, japonês que comia o pão que o filho, o pai e o avô do diabo amassavam com o rabo lá no Japão: japonês que é japonês gosta de desafios, da dificuldade. Ojeda, ao ouvir a proposta, não pensou duas vezes para responder: não! Por que, japonês?, interpelaram. Porque não, oras. Mas, japonês, disseram os maiorais do meu partido: tudo tem uma explicação. Ojeda então explicou: se eu fizer a vontade desses malucos, ficarei maluco que nem eles. Portanto: a minha resposta é não!
Tiveram que aceitar. Pensaram em um, em outro, até lembrarem-se do vereador mais insignificante de todos: eu. Pois, o Rosa, é um homenzinho que nem carro tem ainda; acho que nem casa, se duvidar; e ele vai tirar essa de letra, que nem atacante da seleção brasileira de futebol. Chamaram o Rosa, e eu fui, mais feliz que um ganhador de um reality show. Rodearam daqui, rodearam dali, e finalmente perguntaram: você quer; Rosa, ser candidato a prefeito?
O homem tem que aproveitar as oportunidades na vida, que geralmente, vem de uma em uma no intervalo de dez em dez anos. Então eu disse:
– Ôpa.
– Quer mesmo?
– Mas é claro que quero.

* * *

Candidataram-me a prefeito. Semanas depois, lá estava eu na maratona, concorrendo com os outros vereadores. Havia mais ou menos umas trezentas pessoas nesse dia ali em volta do banheiro da Praça Ari Coelho. É claro que eles não desceram aquelas escadas, mas ficaram ali perto, olhando quem ia ser o primeiro a encarar o fedor. Graças a Deus, não fui eu quem deu inicio.
O primeiro foi um candidato do PMDB, que não ficou ali por mais de cinco minutos, devido ao fedor, que era fortíssimo. Na frente da câmera, ele disse: realmente, temos que rever isso aí... Depois dele, um candidato do PT; que, também, não passou dos cinco minutos, dizendo para as câmeras que de fato o fedor é grande, que quase desmaiou. Em seguida, um candidato do PL, um liberal que era capaz de fazer tudo por dinheiro. O homem, para a surpresa de todos, ficou o dia inteiro e no outro dia voltou.
Ficou limpando o banheiro como se fosse da sua casa, e as pessoas já estavam gritando o nome dele. Mas daí, de repente entrou um bêbado, e urinou fora do buraco; depois vomitou, e fez uma sujeira digna de um mendigo miserável repleto de doenças físicas e mentais. O candidato liberal na mesma hora deu um tapa na cabeça do bêbado; chamou-lhe de porco, e lá na frente das câmeras da tevê, disse: o Brasil não vai para frente por causa duns desgraçados destes! Em um segundo, perdeu quase dois dias de trabalho.
Restava eu; pois, os candidatos do PPSD; quero dizer, do Partido Pobre Sem Dinheiro, sempre fica por último em tudo. Entrei, e assim que senti o fedor apertando as narinas, quase desmaiei. Joguei vômito para todos os lados, tive nojo do ser humano, e raiva. Depois, limpei o vômito, e comecei a limpar o banheiro também. O zelador deste banheiro deveria receber uns dez salários mínimos, por esse serviço. Pois, parecia que ali só entrava homem porco, doente, com infecção em tudo quanto é saída do corpo.
Eu fui tomando ódio pela Humanidade. Dava vontade de gritar, de explodir. Tive raiva de Deus, do pescoçudo do Otávio Nunes, da minha mãe que me colocou no mundo. E assim fiquei o dia inteiro. No dia seguinte, naquele fedor desgraçado, quase sai por umas três vezes. Mas, quando vi, estavam gritando o meu nome lá no lado de fora: eu havia ultrapassado o tempo do candidato do PL! Gostei do som, do povo me aplaudindo, e resolvi ficar uma meia hora a mais.
Fiquei. E ao sair, fui aclamado. Me pegaram pelas pernas e me levantaram, e saíram andando pelas ruas do centro da cidade comigo em cima, como se eu fosse um rei, um deus, um campeão. Com certeza, essa vitória me fez vencer todas as outras. Em todas elas eu era ajudado. Morei lá no Canguru, está certo, mas foi talvez o melhor mês da minha vida. Todo dia tinha festa, e tinha mulher nova para mim. No ônibus, quando não havia assento, todos levantavam, dizendo: deixe o prefeito sentar.
Já os outros candidatos, sempre reclamavam:
– Realmente, o sistema de transporte urbano em nossa cidade não é só o mais caro como o mais péssimo de todos!
– Eu não sei como o prefeito não dá assistência para essa merda de bairro. Aqui é o retrato fiel da miséria. Estão vendo aquela criança ali, com a barriga d’água? Olhando para gente com aquela cara de tristeza? A frauda suja pendurada na chupeta podre? É o mais comum aqui...
– Trombadinha e ladrão é o que não falta por essas bandas. Se eu for prefeito, algo que está quase que impossível no momento, eu darei um jeito nesta joça.
O mesmo aconteceu com os meus serviços em casa de ricos, ganhando a miséria do salário mínimo. Eles mal me deixavam pegar na vassoura, ou fazer algum esforço. Ficavam conversando comigo o dia inteiro, me dando suco, uísque, charuto. Conversas sobre política, religião e moral passavam longe de nossas bocas e ouvidos. Enquanto os outros; os outros falavam na televisão:
– Precisamos rever o salário dos trabalhadores. Agüentar um patrão arrogante e estúpido a troco de uma mixaria não é vida para ninguém...
– Eu não entendo esses patrões: só porque pagam uma miséria acham que podem tudo, inclusive montar em cima do funcionário.
– Precisamos rever os sindicatos, montar uma equipe de vigilância trabalhista, porque são muitos os exploradores e explorados.
– O sofrimento do povo é grande. Somos um faraó no Egito. Precisamos libertar o povo. Dar uma vida mais digna. Conheci muitos pais tristes, por não poderem dar o melhor para seus filhos. A tristeza deste povo é grande. E nós todos somos os culpados por isso, quando pensamos em nós mesmo, em nossas viagens, roupas caras e etc.
– A vida como ela é nos desafora, nos bate na face e chuta o nosso estômago.
Ora, eu não fiquei com medo dessas frases, dessas declarações humanitárias; pois, nunca vi alguém ganhar dinheiro com palavras, exceto um escritor ou outro, e mesmo assim quase velho já. Por isto, fiquei tranqüilo: a vitória era certa. Não havia nada de mais pior do que aquele banheiro fétido da praça Ari Coelho, e todos os homens sabiam disto – se agüentei ficar dois dias ali, eu era capaz dos maiores sacrifícios pela cidade.
E assim se sucedeu. Graças ao pescoçudo do Otávio Nunes, que me olhava com a cara feia, eu havia saído do cargo de vereador e conseguido ganhar a eleição para prefeito num partido que era o último, que tinha menos dinheiro. No discurso da posse, em cima do palanque repeti, com muita vibração, várias vezes essa frase: os últimos serão os primeiros, minha gente! – e o palanque quase caiu.
Mas ainda o meu sonho não estava realizado. E nem no primeiro ano se realizou, porque este período foi o de aprendizado. Mas no segundo, quando já estava malandro, na malandragem braba dos senadores e deputados, o meu sonho se realizou. E eu fui metendo a mão no dinheiro do povo; e comprei uma casona; e comprei um carrão; e abri uma empresa no nome de um sobrinho; e fiz viagens para o exterior; e tomei champanhe e vinho caro no navio; e conheci a praia de Fernando de Noronha, junto de umas três putas de luxo...

Glauber da Rocha

10:22

O Rato

Postado por Glauber da Rocha |

Eu não sabia que tinha um segundo animal dentro de casa: o primeiro era o Rex, um pincher bem engraçado, domesticado; o segundo, um camundongo enorme, feio, desses que conhecem as profundezas dos esgotos, de por medo até em homens marmanjos como eu. Não, não sou medroso. Já fui. Hoje, encaro de frente as aranhas caranguejeiras, as lacraias, os escorpiões, as cobras e os morcegos. É certo que quando os vejo, sinto medo, mas, é tudo momentâneo: logo vem àquele dever de homem da casa, o dever de não ter medo.
Vi o animal. Passou correndo no vão da parede de minha varanda, em direção à rua. Ao me ver, voltou, apavorado, e se escondeu sabe lá onde. Não tive outra vontade senão caçá-lo! Me coloquei então num estado de caçador, que nem esses que saem em safáris. Andando lentamente pela casa, pelo quintal, pisando leve para não assustá-lo com barulho, procurei-o em tudo quanto é buraco. Logo a curiosidade da minha família manifestou-se, perguntando o que eu estava procurando. Falei que um camundongo. A minha mãe riu, com a minha ofensa.
Procurei aqui, procurei ali, procurei acolá, e, até que enfim, achei o bicho cabeludo, feio e horroroso. Havia um cabo de vassoura perto e eu peguei e matei o bandido. Foi um golpe mortal. O bicho soltou um grito, depois foi gemendo, perdendo as forças e morreu numa solenidade que nem certos humanos conseguem no ponto mais alto da vida: morreu sim, mas com dignidade.
Peguei no rabo do bicho monstruoso e saí exibindo o meu troféu. Minha irmãzinha saiu correndo de medo, apavorada, chorando, e eu disse comigo mesmo: preciso dar um jeito nessa menina, anda muito exagerada. Meu irmão sorriu, dizendo com seu sorriso: o que será que ele está sentindo nesse momento? Minha mãe, coitada, ficou morena de vergonha: aonde já se viu, limpo essa casa de noite e de dia, e de madrugada e nos feriados, no calor e no frio para no fim das contas aparecer um camundongo desse tamanho? Eu quero o divórcio!
Divórcio de quem?
Ao colocar o bicho no seu caixão merecido, isto é, numa sacola de lixo, e ver o sexo do animal, vi que não verdade não era um camundongo, e sim uma ratazana. Mesmo assim, não tive remorso algum. Lá na frente, deixando a sacola na lixeira, bati uma mão na outra, dizendo: na casa de minha mãe não tem ratos!
Engano.
Dias depois, encontrei um filhotinho – que devia ser dela – sem conseguir sair da sacola de plástico dentro do lixo da cozinha, ao lado da pia.
O lixo estava praticamente vazio, e ele segurava com as duas mãos no plástico para não cair. Peguei o cesto de lixo e balancei-o. O rato ficou bem assustado, arregalou os olhos e me olhou pedindo pelo amor de Deus, tio, pare com isso...
– Eu, tio? Tio uma ova!
Você vai morrer, rato safado, porque eu sou um assassino, um ateu, um transgressor da moral e dos bons costumes; e você, rato, é um roedor mais maldito do que eu, todo mundo fala mal de você, portanto, te matar vai ser um benefício para o Mundo, para a Humanidade. Mas eis que indo para cima dele, resolvi não matá-lo: era novinho de mais, uma criança, e órfão, o rato...

Glauber da Rocha

11:31

João Ubaldo Ribeiro

Postado por Glauber da Rocha |

Já faz algum tempo que tenho vontade de postar aqui um texto de João Ulbado Ribeiro que li no ano passado e me fez rir bastante. Não sei se isto poderá me trazer problemas, mas postei logo à baixo o conto Alandelão de La Patrie, que, sem dúvida alguma, tem tudo a ver com o nome deste blog. Espero que gostem.

11:27

Alandelão de La Patrie

Postado por Glauber da Rocha |


Não entendo aquele que aprecia o boi. Aqui se criava antigamente muito guzerá, que para mim tem a cara de ordinário, mentiroso, criminoso e cínico. Inclusive, a maioria possui olheiras, mostrando que são perversos devassos de pouca confiança. O sujeito que já se viu no pasto, ou mesmo no cercado, na companhia de um guzerá, esse sujeito sabe que não pode virar as costas nem se desprevenir, porque ele pega, e quem ele pega ele não trata com simpatia. De minha parte, que faço outros serviços, tudo muito geral nesta fazenda, o único boi que se dá bem comigo é o boi Bundão, assim mesmo sem essas alegrias todas, porém com bastante sossego, visto o boi holandês ser pela própria natureza uma criatura fina e de maneiras, está se vendo que é holandês mesmo. Deve ser que na terra dele tem reis e rainhas e desde que boi é boi na Holanda, ele vem sendo educado com finura. Então o boi holandês cobre as vacas dele com muito sentido de sua obrigação, e é até uma coisa bonita de se assistir, porque a vaca holandesa é também educadíssima e então quando Bundão está fazendo um serviço com uma delas até mesmo as visitas gostam de apreciar, porque, no que ele desmonta da vaca, só falta agradecer e ela dar um sorriso. É uma coisa finíssima. Este Bundão, aliás, que está ficando velho, quando eu posso boto uns amendoins no bagaço de cana que ele gosta, que é para ele conseguir desfraldar o instrumento e continuar com emprego fixo -- visto que, no dia que Bundão não for mais espadachim, adeus Bundão, e possa ser até que eu fique com saudades, sendo um boi que, não tendo intimidade com ninguém, me trata parecendo que é formado pelo menos em ginásio. Se um dia eu comer uma buchada dos buchos de Bundão, vou comer com desgosto. Eu como porque nesta vida é um comendo o outro e é melhor que a gente coma o boi do que o boi comer a gente, é uma questão política, mesmo porque o boi não fala.
Antigamente não era igual a hoje, quer dizer, não era esta organização toda. O touro guzerá encarregado de enxertar as vacas era um absurdo. Atendendo pelo nome de Nonô de Bombaim, esse touro guzerá ficava ciscando no meio das vacas da raça dele e, quando uma facilitava, até parecia que ele estava pagando e tinha direito a qualquer coisa, a vaca nem achava tempo para fazer a posição, porque ele já vinha de lá soltando fumaça e completamente armado e uma coisa que eu agradeço a deus é que Deus não me fez eu nascer vaca daquele guzerá. Inclusive, não foi uma nem duas vezes que os vaqueiros tinham que acertar a entrância correta, porque ele não queria saber, ia pincelando onde achasse quarto de vaca. Tipo do boi atrasado, rei da ignorância. Quando eu me lembro de Nonô de Bombaim tratando as vacas, fico destremecendo, a vaca sofre muito. Quando o sujeito compara o tratamento que Bundão dá às vacas holandesas com o tratamento que Nonô dava às vacas guzerás, aí é que o sujeito vê a diferença entre uma pessoa loura e educada como Bundão e uma pessoa sem princípios e amulatada, como Nonô. É por essas e outras que, na próxima encarnação, se Deus quiser e eu merecer, eu volto branco e bem educado. Não quero fazer como Nonô, que chega e vai lascando a vaca toda, se bem que ele é muito bem admirado em toda a redondeza e diz o povo que até hoje tem mulheres que, no entusiasmo de brincar de bicho de duas costas, elogiam o homem dizendo "dá nela, Nonô!", mas considero essas mulheres todas umas vacas guzerás, isto é o que considero, pois que sou a favor do carinho, porradas só quando imploradas ou merecidas verdadeiramente.
Entretanto, com nonôs e bundões e mais uns quanto outros reprodutores de alguma fama nestas terras, as coisas sempre foram dentro do normal. O galo às vezes parece que está conversando com a sombra ou está discutindo eleições ou qualquer coisa, quando que de repente sai com grande brilhantismo e vai bicando as galinhas e virando na direção do sobrecu e assim ele faz o trabalho todo em coisa de cinco minutos, igual a uma faísca. Os ovos sucedentes são pardos, não claros, galados, não pecos, e fortíssimos para a saúde, ou senão saem pintos e todas as galinhas prosseguem galinhando como quis Nosso Senhor. Assim, o calango possui dois vergalhos, um na direita outro na canhota, ficando bem municiada qualquer calanga que venha pela direita ou pela esquerda, sendo que o calango só pega uma calanga de cada vez, não se aproveitando de que pode pegar duas. Porque não é uma questão de vaidade, é um problema de não perder tempo, pois que, se a verdade é que o calango tem muitas moscas para comer, tem também muitos outros bichos desejosos de comer o calango, de forma que não se pode facilitar. O beija-flor trepa nos ares, às vezes de passagem, às vezes cumprimentando e aproveitando, visto o coração do beija-flor zumbir e ele morrer cedo, beijando flores e o coração zumbindo. As jegas e as éguas apreciam a cobertura e há casos de jegas que ficam dando uns coicezinhos no jeque a tarde toda, até conseguirem, e aí rangem os dentes dão umas babadinhas e ficam grandemente admiradoras do macho, se ele soube responder bem àqueles coicezinhos. O cágado ronca em cima da cágada, que tem toda a paciência, porque a construção deles não facilita e dever ser por isso que o cágado ronca nessas horas. O pato e o porco aplicam roscas e tem quem diga que a rosca é para estontear a fêmea, que fica olhando, olhando, até se enroscar completamente. O gato apresenta espinhos que sangram a gata na puxada, sendo porém o sangramento necessário para a gata emprenhar. O louva-deus fica parado e, antes mesmo que a louva-deusa esteja pronta, já vai mastigando o macho e ele cabe todo na barriga dela. Isto tudo se vê por aqui e muitas mais coisas, desde as lagoas com seus sapos e jias se casando pelas águas, até os barulhos dos bichos maiores. Foi assim que foi feita a natureza e, em cada uma juntada, está se sentindo a força.
Pois então, nestes tempos modernos, estamos desnaturados. Embora eu, que não gosto de boi, não estivesse muito sabendo até que tudo começou a ser modificado, recebemos diversos doutores e tudo mais. E não foi assim que, depois de muitos anúncios e forte nervosismo, levamos a gaiola grande para a estação de trem, parecia até uma festa só faltando banda de música, para receber o grande touro charolês francês, que aqui tomou o nome, mesmo antes de chegar, de Alandelão. Todo nome francês termina em ão, e o nome era para ser Napoleão, que foi outro francês retado, que invadiu a Inglaterra, escarreirou D. João VI, enfim fez o maior cacete e não perdoava nada. Mas se preferiu Alandelão, que é um artista da França muitíssimo cotado e, pelo que eu ouço falar desse Alandelão, era para as vacas aqui estarem grandemente festejando.
Agora, esse Alandelão daqui, na hora que eu vi, achei logo que era um animal bastante triste, todo escuro assim, parecendo de luto. No começo, pensei que era da natureza do boi francês, porque se sabe que o francês aprecia a safadagem mas tudo na maior decência, não é como as coisas de Nonô de Bombaim. Mas, mesmo assim, como é que esse boi podia ser tão triste, sabendo-se que de agora em diante vai ficar instalado igual a um monarca, com massagem, comidinha, alisamento e vitamina? E, se as vacas para ele trabalhar não eram vacas francesas da maior fineza, também não eram de se jogar fora, inclusive sendo começo de verão e estando a maior trepação em todas as partes da fazenda, até os motucos soltando a lenha nas motucas, os lacraios nas lacraias e assim vai, para não falar em outros, como os preás, que todo mundo sabe que quando não estão comendo estão afogando o ganso, seja inverno ou seja verão. E às vezes o sujeito se veste de preto assim mas não quer dizer nada, haja visto padre Barretinho, que Deus haja, cala-te boca.
Um emprego como o desse boi muitos de nós passamos a vida rezando para encontrar e agora ele chega todo triste, quase uma antipatia. Aquele bicho do tamanho de um elefante atarracado, todo de preto e com uma cara jururu que fazia pena, quando o natural é que estivesse sacudindo o rabo, babando um pouco e preparando o ferramental. Mas é assim que se vê como o animal também tem a sua inteligência, porque esse Alandelão já estava perfeitamente conhecedor do que ia acontecer e era por isso que não se alegrava e tinha toda a razão, coitado.
Quando eu soube, tomei um choque. Já tinha uma semana ou duas que Alandelão estava no seu apartamento, todo ventilado e cheio de nove-horas, inclusive um aparelho americano para as moscas não incomodarem ele, e então eu, que passava em busca de uns baldes e umas gamelas, perguntei quando era que a folga dele ia acabar e quando é que ele ia sair para cobrir umas vacas.
-- Com essa fama toda, está todo mundo querendo apreciar -- disse eu. -- Deve ser uma coisa de muita competência.
-- Mas ele não vai cobrir vaca nenhuma -- respondeu Dr. Crescêncio, que é uma espécie de engenheiro de vaca, que trabalha aqui dando orientação e é formado em vaca na faculdade.
-- Ô, e o bicho está aqui para quê? Ele não é reprodutor?
-- Um animal desses você acha que a gente ia deixar esperdiçar direto com as vacas? Não, senhor! Tudo o que sai dele vale ouro. A gente extrai, bota no gelo e depois enfia nas vacas com uma seringa. E aí se aproveita tudo.
Nisso, com a cara meio saindo pela abertura, eu vi que Alandelão já devia saber brasileiro, ou então ter estudado na França, porque entendeu a conversa toda e ficou ainda mais de beiço pendurado do que estava antes, uma infelicidade de cortar o coração. Indaguei como era que se extraía o material, se tinha de enfiar uma agulha de injeção nos quibas do coitado do animal, mas o Dr. Crescêncio disse que não. Que, de tantos em tantos dias, o pessoal encarregado ia lá e fazia a manipulação.
-- Como é essa manipulação?
-- Se você quiser, pode assistir, que daqui a pouco nos vamos coletar.
-- O boi não se aporrinha, não, doutor?
-- Que nada, ele está acostumado.
E, de fato, Alandelão, se não ficava entusiasmado, também não criava dificuldade, estava se vendo que era treinado na profissão. Ele via a turma de manipulação e já ia abrindo as pernas e olhando para o outro lado e ai aguardava a extração, tudo muito despachado, sem nem um suspirinho. Naquela hora, vendo um boi tão prestigiado, cheio de medalha e tudo, sujeito a ser chamado pelos outros de reprodutor donzelo, dava bastante pena. No finzinho, os manipuladores ainda davam uma espremidinha, mas ele não tugia nem mugia. Ficava ali passando humilhação com a melhor cara possível. Como é que uma criatura pode viver nessa situação -- ainda mais um francês?
E, inclusive, pode ser até que na França a profissão dele seja mais respeitada, mas aqui, nesta esculhambação, não demorou e ele pegou diversos apelidos -- cinco-a-um, mangueira-fria, desconhece-vaca, come-vento, cassetete-gelado, pinga-na-cumbuca, couriça-de-mão, uma porção mesmo --, que a gente ria mas sentia que não estava direito zombar de uma infelicidade do destino alheio.
Foi assim que tivemos o plano de fazer um benefício a Alandelão, benefício este com a vaca Flor de Mel, pé duro porém forte de ancas, boa envergadura e vaca já com muita experiência de vida, inclusive havendo sido, segundo muitos, amante do Nonô de Bombaim e diz o povo que os dois comiam uns pezinhos de liamba, conhecida por outros como fumo-de-angola, aliás maconha -- o que é que estamos escondendo --, que aqui nasce feito mato e não deixa de haver quem faça um fumeirozinho, enfim, diz o povo que os dois comiam uns pezinhos e ficavam na maior safadagem, isto antes de Nonô ter pegado aftosa numa farra e ter morrido velho e aftoso e desestimado por todos em geral. Está se reconhecendo, então, que Flor de Mel não era nenhuma mocinha, mas, em primeiro lugar, sabe-se que o francês gosta de velha. E, segundo, Flor de Mel estava sempre disposta, coisa que não se pode dizer de todas a vacas, mesmo elas sendo vacas ou talvez por isso mesmo.
Então eu e Emanuel e mais o menino Ruidenor combinamos deixar Flor de Mel no cercado pequeno, que fica perto do apartamento de Alandelão e, de noite, a gente ia lá e soltava o francês. E dito e feito, até com luz de lua para completar. Quando a gente abriu a porta, o bicho tomou um susto, não estava acostumado. E não queria sair de jeito nenhum, mesmo a gente explicando. Emanuel achou até que a gente devia dar uns piparotes lá na estrovenga dele para ver se ele se animava, mas todo mundo ficou com medo de que ele achasse que algum da gente era manipulador e quisesse completar o serviço todo e um boi deste tamanho a pessoa deve procurar não contrariar. Afinal, tanto a gente fez que o bicho foi saindo para o cercado, meio estranhando. Nisso Flor de Mel, que aí foi que eu vi que é mesmo uma velha assanhadíssima, abriu logo as ventas para o lado de Alandelão e foi chegando, foi chegando, mas o boi nem deu sinal.
-- Será que tem pouco tempo que fizeram uma manipulação e ele esta desfraquecido? -- perguntou Emanuel.
-- Que nada, que nada! -- disse Ruidenor, que estava doido para ver a finalização toda. -- Bote o bicho para perto, bote o bicho para perto!
Não sei quantas mil arrobas pesa um desgraçado daqueles, mas a gente foi puxando e só "vai, Alandelão", "vai, Alandelão" e Flor de Mel ali dispostíssima e só faltou a gente botar um macaco de caminhão debaixo do infeliz para ele levantar, mas não tinha jeito. Até que, na hora já de todo mundo desistir, ele deu uma olhada para um lado, uma olhada para o outro, uma olhada para mim, outra olhada para Emanuel e aí fez aquele movimentozinho fraco para subir na vaca, que mais que depressa ficou na posição certa, que a diaba não tinha desistido de papar o francês.
-- Lá vai ele, lá vai ele! Tenha fé, Alandelão!
Mas parece que o boi francês é um boi de pouca fé, porque, bem no meio daquela subidinha fraquinha, que ninguém nem estava acreditando que ia dar na altura de Flor de Mel, Alandelão revirou os olhos, fez um barulhinho na garganta e se despejou todo no chão.
-- Vigessantíssima, que deve ter para mais de setecentos mil contos aí desparramando no chão! -- disse Emanuel. -- Vamos levar esse boi lá para dentro!
E, de fato, numa situação dessas, só podia ser que a gente tinha de levar o bicho de volta, ele com a cara envergonhada e Flor de Mel aborrecidíssima e, pelo visto, com muita saudade de Nonô de Bombaim. No outro dia, bico calado, por causa do esperdício da matéria-prima de Alandelão. E parece mesmo que ninguém notou, porque nós três ficamos nervosos na hora da manipulação seguinte, mas Alandelão trabalhou do mesmo jeito e ninguém se queixou da produção dele. Só nós três é que podíamos notar que, quando ele via a gente, ficava todo sem graça, mas a gente compreendeu e respeitou, de forma que ninguém falou nada. E, de qualquer maneira, depois se descobriu que Alandelão era uma sociedade, porque ninguém tinha dinheiro para comprar ele sozinho, e aí ele passava produzindo numa fazenda e depois em outra e outra e assim por diante. E aí chegou o dia de botarmos ele na mesma gaiola e levarmos ele para o trem. Não se pode dizer que ele deixou amizades aqui, mas também não fez desafetos. E nós três estavam todos sabendo que ele nasceu para a profissão dele, só sabia trabalhar daquele jeito, tinha especialização, que é que se ia fazer. Assim mesmo, Emanuel passou a mão na cabeça dele na hora do embarque e disse: "Deus que lhe dê uma boa mão, Alandelão". E o dono aqui da fazenda também viu, mas nem perguntou, todo satisfeito com o dinheiro que ganhou com o trabalho do francês. Quando o trem saiu, ele cantou baixinho:
-- Alandelão de la Patri-i-i-i-e!
Ele pensou que eu não entendi, mas eu entendi. Ele cantou um pedaço do hino da França, somente trocando o Napoleão pelo Alandelão. Em francês, quer dizer "Alandelão de nossa terra". Lá deles.
Autor: João Ubaldo Ribeiro.

Texto extraído do livro "Livro de Histórias", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1981, pág. 11.

E Acabe passou a dizer a Elias: “achaste-me,
inimigo meu?”A que ele disse: “achei-te.
Visto que te vendeste para fazer o que é mau
aos olhos de Jeová, eis que trago sobre ti
calamidade; e ei de fazer uma varredura
depois de ti e decepar de Acabe
todo aquele que urina contra o muro...
– 1 Reis 21-20.



MUITA IRONIA E POUCA VERGONHA NA CARA

a Hugo Carvana

Primeiro a idéia aparece, sempre de maneira alegre, que me faz ficar rindo por alguns instantes, dias, semanas. Depois, como que naturalmente, ela vai crescendo, aumentando, ganhando proporções, se encaixando. As personagens vão surgindo, e eu penso num ator, em outro. Quando vejo, tanto o filme quanto o elenco estão prontos aqui, na minha cabeça.
Fico vivenciando tudo isto por dois, três, até quatro anos, que é um processo de amadurecimento. Ninguém pode ter uma idéia hoje e realizá-la amanhã. Muitas delas são falsas. Para as que persistem e perseguem, e ficam conosco por muito tempo, a realização é quase certa. Depois, escrevo o roteiro, desenho os quadros, elaboro o projeto e vou atrás das pessoas. É um trabalho chato, pedir?! É! Porém, vale à pena.
Mas tudo flui facilmente, ainda mais quando o projeto é para um filme de comédia. Não que fazer comédia seja algo fácil, como pensam muitos. Pelo contrário: fazer rir é mais difícil que fazer chorar, principalmente nos dias de hoje, com tantas injustiças. É mais fácil no sentido de levantar a grana, de conseguir o patrocínio.
Se vai fazer aquela aula de filosofia, de história, de sociologia para o empresário ocupado, demonstrando como que as pessoas sofrem por causa de uma coisa ou outra, ele vai dormir em cima da mesa, entediado. Mas se conta a história do malandro, do golpe, do dinheiro em jogo, das mulheres gostosas, o homem se levanta, aperta a mão, já agradecido, e desembolsa.
Com o dinheiro no bolso, vou atrás da formação da equipe. Na escolha, fico apenas com os profissionais de alto nível. Não gosto de amadores, de amadorismos. Nem de gente que está aprendendo. Há muitos lugares para os aprendizes. Então, começa a filmagem. O filme, por ser uma comédia, tem que ser feito num clima divertido. O responsável por este clima, querendo ou não, é o diretor. Se ele é um intelectual, ou um revolucionário, ou seja lá o doido que for, a coisa não flui.
Aliás, não suporto homem que toma bonde, que vive bondeado, que faz o estilo sofredor, daqueles que sofrem, e que pensam, e se não der, e se... Com esse tipo de diretor, como é que pode sair um filme divertido? A coisa tem de vir de fora para dentro. O responsável por este fora é o diretor. Eu faço isto. Quando não estou brincando com tudo e com todos, ou eu canto ou eu danço. O nome disto é molecagem. Quando um homem deixa morrer o moleque dentro de si, é porque já morreu a alegria, o entusiasmo e a beleza.
Fico sério apenas na gravação das cenas, que é a hora em que por mais engraçada que seja a encenação, o ator tem que manter a linha. Numa palavra: em todo o processo de um filme, desde a filmagem à sua estréia nas telas dos cinemas, eu me ocupo, e não me pré-ocupo. Para cada dia, as ocupações do seu dia. O depois; é depois. Se der certo, deu. Se não der certo, fazer o que? Lamentar?
Eu não posso lamentar. Sou um comediante, e não um trágico. O cinema, a meu ver, não pode viver de tragédias. Não acredito que o cinema ou a literatura possam transformar o mundo. Não há santidade na arte, há vaidade, isto sim. Satisfação do ego. Por mais que queiram camuflar a vaidade, ela aparece. Na vitória ou na derrota, ela aparece, inevitavelmente. Então, para que se enganar?
Mas se tantos diretores, principalmente os jovens, querem sofrer, que sofram – só não me chamem para sofrer junto. Não é a minha praia. Nela não tem os malandros, não tem os vagabundos, não existem os sem-vergonhas na cara. Ninguém fuma, ninguém bebe, ninguém dança. Eu gosto da dança. Da ironia, do entusiasmo. Eu gosto principalmente da personagem tipicamente brasileira, do homem que quando deve se esconde, do sujeito safado, da mulher dissimulada, em cima dos sapatos, dando seus ataques de histerias.
É banal? É. Mas os meus cabelos estão brancos sem precisar de muito sofrimento. Não sou um homem de pretensões, porque não adianta. Todos no Brasil e no mundo sabem o que é certo e o que é errado. Onde se vai, escuta-se a palavra amor, honestidade, justiça. E te pergunto: o mundo é paz e amor? Estamos sendo honestos e justos o tanto quanto falamos sobre isto? Se filmes transformassem realidades, tal como esses jovens acreditam, no Brasil não haveria tanta corrupção, haveria?
Eu já fui um sujeito piedoso, cheio de pudores, preocupado com a existência ou não de Deus, com valores morais, querendo por toda lei fazer um mundo melhor. E o que eu ganhava com isto? Hã? Só depressão. Não que a religião seja algo ruim. Para falar a verdade, graças a ela a vida ainda é possível. Não sou contra. Mas, em cada um ela age de um modo. No meu caso, ela me fazia um negador de suas paixões, e vivia deprimido.
Naquele tempo não era essa palavra que usávamos. A palavra era melancolia. E o homem melancólico, chamávamos de bondeado. O individuo das crises existenciais, sem amores, sem amantes, sem vida. Não gosto disto, nunca gostei. E lamento que tantos jovens queiram passar por este sofrimento, com os seus filmes densos, cheios de pausa, onde cada cena existe uma reflexão para a vida inteira. Não é comigo. Gosto do ritmo rápido, das piadas curtas mas inteligentes, uma atrás da outra. Gosto dos musicais.
Também não sou chegado em violência, na estética do sangue, da crueldade. Os meus heróis nada têm a ver com Sylvester Stallone, com o capitão Nascimento. Os meus heróis olham uma boazuda cruzar a rua e vão atrás. Tem gingado, estilo; falta-lhes a vergonha na cara. Geralmente, não trabalham, e quando trabalham, não são importantes. Não trabalhar, para muitos deles, é uma questão de princípios. Há toda uma reflexão filosófica por detrás de um vagabundo.
Já outros, são charlatães. Mas não o charlatão como muitos por aí, pós-modernos, gananciosos, que querem enganar a muitos de uma vez só. Os meus charlatões enganam de um a um. Para eles, é uma forma de sustento e de diversão. Não são de olhar para cima querendo ocupar o lugar mais alto, nem de olhar para baixo com orgulho, considerando melhor que os outros.
Já as minhas mulheres, essas são nervosas, neuróticas, fazem espetáculos. Mas amam, acima de tudo. Elas estão em todos os lugares: em bares baratos, em bares caros, ao lado de um magnata, de um bandido, ou até mesmo de um trabalhador. Eu acho que meus filmes ajudam as pessoas a enxergar melhor à sua volta. O Brasil é igual em todos os lugares, tanto em São Paulo como no Rio. As diferenças são muito poucas.
Uma palavra para o sujeito ser feliz, nos dias de hoje? Eu esqueci seu nome. Qual é mesmo? Ana? Ana Andrade? Você tem quantos anos, Ana? Vinte e seis? E linda deste jeito? Não se acanhe. Em linhas gerais, Ana, só há uma maneira de ser feliz no Brasil hoje, e essa maneira é ter muita ironia e pouca, mas muito pouca vergonha na cara...




LÍDIA

Nem eu, nem o Alaor, nem a Lídia, e muito menos a minha esposa gostávamos de trabalhar no serviço em que trabalhávamos. Não que fossemos vagabundos, mas é que não éramos felizes nas atividades que exercíamos: tanto eu quanto todos eles, além de ganhar muito pouco, uma miséria quase, trabalhávamos feitos escravos do faraó, para no fim das contas gozar da ingratidão de nossos esforços.
Não passava outra coisa em nossas cabeças e em nossos corações se não a idéia e a vontade de mudar de vida; sei lá, fazer outra coisa, algo que desse dinheiro, que não precisasse trabalhar tanto, que nos libertasse das restrições financeiras, e que nos realizasse, permitindo ser aquilo que realmente éramos no mais profundo de nossos seres.
Foi quando eu, que vivia enfiado em igreja, escutando tudo quanto é tipo de pastor pregar a Palavra de Deus, decidi afinal fundar uma também. Pensei até no nome, e veio: Jesus Cristo é a Nossa Riqueza. Falei com o Alaor, que repugnou a idéia. Mas não me deixei desanimar com a sua resistência, e fui perguntando o porquê não; o onde; o quando; o que é o que é? Que faz o homem ficar rico e o outro ficar pobre?
Me chamou de doido.
Mas daí veio a sua esposa, a Lídia, que sempre se metia na frente de tudo, mudava a cabeça dele, e dava a última palavra. E foi perguntando o porquê não; dizendo que ninguém merece viver uma vida como a que vivíamos; que hoje em dia todo mundo faz isto; que o salário do pastor, pelo tanto que ele fala, nunca é de fato o merecido; que o pastor, por dar tanto ânimo, tanta luz, merece mesmo ser rico, milionário, comprar emissoras de tevê e viajar de férias umas dez vez por ano.
– Viu, Alaor? Tem que pensar assim, que nem ela. Por isto que não saímos da miséria. Porque pensamos que tudo é injusto.
– Está bem, está bem, mas eu não vou ser pastor nenhum! O máximo que posso fazer é passar com a sacolinha na hora da oferta.
– O Santos que vai ser o pastor, porque conhece mais a Palavra de Deus – disse a Lídia se referindo a mim.
– E você? – perguntou Alaor para ela.
– Eu? Eu fico administrando...
– Administrando?
– Por quê, não confia mais em mim?
– Ok, ok, confio sim, minha administradora fiel.
– E a sua mulher, o que ela vai fazer? – perguntou-me a Lídia.
– A minha mulher – disse eu – pode ficar na porta da igreja, porque é simpática e inocente: sorri até para ladrão.
– E quando vamos começar?
– Agora.
E começamos.
A primeira coisa que fizemos foi ver quanto que cada um ia dar; onde íamos abrir a igreja; que ninguém iria mandar em ninguém; que tudo seria decidido em conselho. Depois de tudo combinado, colocamos as mãos em obra. Achamos um salão para alugar e começamos dias depois. Cada um foi chamando seus amigos, que foram chamando seus amigos e os amigos de seus amigos, até dar uma média de cem pessoas.
A bonança e a fartura vieram rápidas, com o meu argumento de que “quem dá mais, recebe mais”; que se o crente SACRIFICA todo o seu salário, ou as suas jóias, ou o carro, ou a sua casa, o Senhor se sente honrado e lhe dá cem vezes mais, infinitamente.
As pessoas acreditavam.
Mas não vou dizer que acreditavam apenas por causa deste argumento, e sim porque eu pregava com aquela voz de choro, de desespero, dizendo: oh meu Deus, não posso continuar sonhando com uma vida de realizações e vivendo uma vida de fracassos; que eu não posso acreditar num Deus Grande e as pessoas rirem de mim pelas coisas que eu tenho; oh Senhor, manifesta!, vira a mesa, meu Pai!; aceita o meu salário como oferta, as minhas jóias, o meu carro, a minha casa; renove a minha vida, Senhor!
Porque tudo dava certo, quase não havia briga entre a gente. Mas isto foi assim até a Lídia, a mandona da Lídia, começar a ser o que ela realmente é; e eu e o Alaor a sermos aquilo que realmente somos, junto com a minha esposa. A Lídia, que já vinha manifestando a sua vontade de poder, a sua mania de querer controlar toda a situação, começou a tomar a frente de tudo, a decidir tudo, a querer fazer tudo sozinha. Quando vi, ela queria ser, além de tudo o que já era na igreja, pastora também, no meu lugar.
Eu podia muito bem protestar – era isto o que mais fazia em cima do altar afinal – mas, já que eu não ia ganhar nem mais nem menos com isto, dei o meu cargo para ela e deixei o altar. Antes de passar o Ministério para ela, eu falei, ainda no altar, para os meus fiéis: o Espírito Santo me revelou que a Lídia tem um poder muito maior que o meu para pregar, curar e libertar; a partir de hoje, ela é a nossa pastora, amém?!
O amém foi um tanto triste; mas, assim que ela, animada com as minhas palavras, começou a pregar, maravilhas aconteceram em nossa igreja: havia ofertas de cem, duzentos, trezentos e até quinhentos reais numa só pregação! No fim das contas, acabei passando por humilde, como aquele cantor famoso que deixou apenas a voz do irmão aparecer, e meu nome deixou de ser pastor Santos para transformar-se em: santo homem.
Com a Lídia querendo mandar em tudo e fazer tudo, desde as decorações de cada dia à idéia de arrancar mais dinheiro dos fiéis, eu e o Alaor fomos ficando de fora, e íamos beber cerveja e uísque lá na casa dele. A minha mulher, nesta altura, já era uma espécie de escrava da Lídia; algo aliás que nem me incomodou, porque já estava pouco me fodendo para tudo: tinha dinheiro sobrando, não tinha? Eu trabalhava pouco, não trabalhava? Então? Para quê esquentar o chifre pontudo com rixas que não levam a nada?
Eu e o Alaor, depois de alcoolizados, íamos para casas de luxo, comer as prostitutas que fazem faculdade e abrem as pernas para pagar seus cursos. Não havia diferença alguma entre elas e nós, e por isto nos dávamos muito bem. E assim ficou por vários anos, até a Lídia, cada vez mais poderosa, além de mandar em nós como se manda em cachorrinhos, passou a jogar em nossas caras as nossas “sem vegonhices”.
Foi quando vi que dinheiro não é tudo nesta vida para muitas pessoas, principalmente para gente como ela, que além de ser rica quer ser melhor do que os outros. Com raiva dela, resolvi fazer um curso de Teologia – ao que o leitor já deve de estar perguntando: mas o que tem a ver Teologia com tudo isto? Não era só matar a imundície?
Eu vou mostrar que violência física e verbal são coisas do passado. Hoje em dia, a força tem de ser intelectual: tenho mais medo de um hacker do que dum assassino sangre frio...
Depois de formado, subi no altar com o título de testemunho por ter conseguido me formar, mas com o intuito de me proclamar bispo. Lá em cima, todo poderoso, falei: além de tudo, minhas irmãs e meus irmãos em Cristo; preciso anunciar a vocês que a partir de hoje sou o bispo desta igreja!
A Lídia ficou vermelha de raiva. Vi na cara dela a nítida vontade de sair do púlpito e quebrar o pau, me pegar pelos cabelos e bater como se bate nos filhos. Na hora de descer, ao passar por ela, ouvi: você me paga, filho duma mãe, por tudo isto que você me fez...
Ao ouvir a sua ameaça, retruquei baixinho, para só ela ouvir:
– Como, sendo Papa?
Eu devia ter falado tudo, menos isto. Mas também, como que ia imaginar que ela me levasse à sério? Meses depois, no meio do culto, ela falou que o Senhor havia lhe revelado algo muito maravilhoso dias atrás; e que só não tinha comunicado ainda porque precisava da confirmação, que lhe veio minutos antes.
Disse que tal revelação aconteceu em sonho.
Ela sonhou que estava junto comigo, com o Alaor e a minha esposa quando de repente Jesus olhou para ela e disse: Pedro, tu és pedra; e sobre ti edificarei a minha igreja; tudo que ligardes na terra, será ligado ao céu, e tudo o que desligares na terra, será também desligado no céu.
E depois disto, lhe entregou a chave.
A multidão aplaudiu; e ela, não só se contentou em auto-proclamar Papa como me desligou da minha função de bispo publicamente, colocando o marido dela em meu lugar. Eu fiquei mais descrente do que São Tomé quando ela disse isso, e fui até o seu ouvido, dizer: ah, é?, bruaca; você quer que eu conte tudo para eles, é isto? Quer?
Ela falou faça isso se você é homem.
E então eu contei: esta igreja, senhoras e senhores, é uma farsa; aqui não é uma casa de Deus, de Jesus Cristo, como falamos, e sim a casa de Satanás, este amigo intimo de Lúcifer, o Pai da Mentira. O nosso padroeiro, meus irmãos e minhas irmãs, não é Paulo Apostolo, como dizemos, e sim o Diabo! E os nossos santos, são os demônios malignos... E nós, porque pregamos a falsidade, a mentira, somos filhos legítimos do Inferno! Mas, a partir de hoje, eu renuncio a esta igreja, a esta farsa, a esta prática de arrancar o dinheiro de vocês, dizendo que é dando que se recebe, e vou-me embora, antes que este teto desabe sobre as nossas cabeças!
Peguei a minha esposa e saímos. Em casa até pensei em levar adiante a minha vingança, denunciando todos os nossos roubos para a polícia. Entretanto, eu tinha o rabo e o chifre presos também; e deixei de lado a Lídia com a sua igreja; que, por mais ilógico que posso parecer, aumentou umas dez vezes o número de fiéis depois do escândalo. Dias depois, como tinha de ser quando sempre ocorre com um cisma, eu fundei outra igreja; mas, desta vez, sem sócios, é claro...



MEU FUSCA QUERIDO


Eu não podia de maneira alguma negar o meu fusca querido para a minha filha dar umas voltas bem no dia em que ela tirou a sua carteira de habilitação, podia? Outro pai, mais firme na educação de seus filhos, negaria; deixando-a dirigir sozinha somente depois, quando estivesse dirigindo bem. Mas, como sou um pai que neste tempo havia desaprendido a dizer não, pois passei a ter medo de perder o amor de minha filha – coisa aliás muito difícil de acontecer, embora aconteça – não só dei o meu fusca querido para ela dar umas voltas como ainda lhe dei uns trocados para ela gastar à toa.
Para ser mais exato, em tempos remotos até negaria; se ela, depois dos dezoito anos de idade não começasse a manifestar as suas revoltas contra a sua mãe e eu, o pai Caxias, como ela passou a me chamar. Então, feliz da vida com o seu pai amoroso, pegou o telefone e ligou para a sua amiga, e falou: o meu paizinho querido liberou o fusca para mim hoje; às dez horas eu passo aí para te pegar, viu amiga? Hoje é dia de festa; quero dançar até de manhã...
– Até de manhã, filha?
– Relaxa, pai, sei me cuidar.
Tive vontade de dizer para a minha filhinha do coração que ela não bebesse; mas, veja bem, os nossos filhos geralmente são aquelas eternas crianças que entendem apenas o contrário: se você diz não faça isso, elas vão lá e fazem. E fazem talvez nem porque são teimosas, coitadas, mas é assim que elas entendem: pelo contrário – ou não é? Dissesse não beba, ela, com toda a certeza, entenderia: beba. E encheria a cara, tomando um porre homérico, como o meu vizinho, que é professor de Literatura, costuma dizer sobre os seus excessos.
Mas antes eu tivesse falado, pois a minha filhinha pequena, ingênua e inocente, bebeu tudo quanto é tipo de bebida que esses marmanjos na noite costumam dar para as suas presas, a fim de que elas caiam mais facilmente em suas armadilhas maldosas – por mais inimaginável que pareça, também fui jovem, meu querido leitor, e como quase todos os jovens, caçava desonestamente também, fazendo uma trilha de drinks em direção à armadilha, à santa arapuca.
Lá pelas seis da manhã, ela me ligou, dizendo que entrou com tudo numa camionete 4x4 importada, e que era para correr urgentemente para lá, antes que o rapaz chamasse a polícia: fizesse isto, ela perderia a sua carteira provisória no mesmo dia afinal.
– Você está bem, minha filha? Não aconteceu nada com você? Nenhum arranhão? Deus é Poderoso!
Peguei um táxi e em menos de dez minutos já estava lá, prestando os primeiros socorros. O rapaz, profundamente injuriado, quase me deu na cabeça; mas eu, velho que sou, assumi a posição humilde, de coitado, e só não chorei na frente dele porque não se chora na frente de um homem nem em último caso: eu pago tudo, por favor, não chame a polícia, foi o que falei.
Graças a Deus, a camionete 4x4 importada dele não sofreu muito do acidente, mas, sabe como é, qualquer coisinha que acontece com uma camionete dessas é mais de mil reais para cima. Desembolsei 500 mangos; era o eu que podia, sou um simples aposentado que precisa dar de comer a três filhas, a uma esposa, e cinco netos – até netos eu tive nesta hora... O rapaz, por Nossa Senhora que está no céu, acreditou, e foi embora, com os meus 500 mangos no bolso.
Eu poderia muito bem tirar a cinta e bater na minha filhinha na frente da amiga dela; ou então, dizer um monte de ofensas, algo que a oprimisse mais uns vinte anos, como vinha lhe oprimindo desde que ela se entendia por gente; porém, dei um abraço nela, dizendo: Deus é Pai, minha filha; e bons são os anjos, que lhe protegeram.
– Hã? Como assim? – foi o que ela disse.
O meu fusca querido quase deu perda total. Não que o acidente fosse forte, e sim que um fusca quase não agüenta nada, principalmente o meu, que já tinha quase a mesma idade que a minha. Durante o dia, fiquei pensando se mandava o meu fusca querido direto para o ferro velho ou se para uma oficina mecânica. A minha esposa, sábia e inteligentíssima, aconselhou-me o ferro velho: que eu comprasse um carro novo, com ar condicionado, teto solar, combustível à gás, e air bargs.
Ferro velho nada. O meu fusca querido era o mesmo que um filho meu: desfazendo-me dele iria acabar mais infeliz que um pai rico quando deserda um dos seus. Decidi levá-lo a uma oficina mecânica, e ressuscitá-lo de entre os mortos, tal como Jesus fez com Lázaro, como sempre diz o padre da igreja perto daqui de casa quando responde, ao dono do boteco, se a cachaça está boa ou ruim.
Antes de entregá-lo na mão de qualquer um, fui a várias oficinas mecânicas, e decidi entre uma delas utilizando-me de um critério perfeitamente desastroso: deixei-o na mecânica onde tinha mais carros, pensando que por isso, logo, todavia, portanto, que o mecânico deveria ser bom...
Puro engano: a sua oficina só era lotada de carros porque ele demorava entregar o serviço...
O mecânico era uma porcaria que só vendo. Ele pegava 50% de adiantamento, gastava não sei aonde, pondo a desculpa que no aluguel e na energia elétrica do galpão. Para mim, tenho a absoluta certeza de que ele pegava esses 50% e enfiava bem no meio do rabo cheio de graxa dele: não havia outra explicação, com certeza não havia.
Engoli cargas de ódio por causa de mecânico porcaria. Ele me mandava ir tal dia e tal dia o serviço não havia nem começado. Ia no outro; no outro, e sempre assim: ele mandando voltar daqui quinze dias, daqui dez dia, daqui cinco dias, daqui três, dois, um. Foi quando comecei a desejar o mal para ele. Na sua frente, passava mil tipos de palavrões na minha cachola, que queimavam a minha garganta, a minha língua, louca para falar aquilo que considerava vir do próprio Espírito Santo. Mas, me calava, dizendo à tarde eu volto. E de tarde voltava. De noite eu volto, e de noite voltava.
Passei a observar a vida dele: no mínimo aquele porco não devia ter nem mesmo lavagem para comer dentro de casa. Alguém que tinha tudo para enriquecer, e que preferia enganar os outros, viver essa vida de sujeito desonesto. Quando chegava lá, e falava e aí?; ele logo mandava um funcionário seu pegar no maçarico e trabalhar no meu fusca. Mas, era pura enganação daquele filho da mãe de uma jararaca, porque era isso o que ele era, uma JARARACA.
Sem querer, falei: a vontade que tenho é de te esmagar.
O homem, sabido que era, ligou para a polícia, me acusando de ameaça.
A polícia apareceu em minha casa, a fim de fazer o confere.
– Não, não confere seu policial; sou um homem de bem, a única coisa que quero é o meu querido fusca de volta.
E logo em seguida, contei toda a história, tirando, é claro, a minha filha para bem longe dela.
Os policiais tomaram nota, e foram embora. A minha esposa, assim que viu eles saírem, me disse: amor, por que você não toca fogo naquela merda? Compra um carro novo, vai ser melhor para você; olha o tanto que você está gastando: saúde é mais cara do que o dinheiro.
Néscio, não dei ouvidos.
Eu queria por toda a sorte ou azar o meu querido fusca de volta. Às vezes, até sonhava com ele, algo que me dava uma felicidade infinitamente indizível: acho que nem sonhar com um carro novo seria tão prazeroso assim. Mas logo que acordava, e não via o meu querido fusca na garagem, recebia uma pontada forte no peito, que atenuava com a imagem daquela porcaria de mecânico se fazendo na minha cabeça.
– Por que não morre uma praga desta? – era o que eu me perguntava.
Não deu outra: o homem morreu.
Fiquei extremamente furioso com isto. Queria saber como que o meu querido fusca ia ficar na história.
– Não fica, disse o seu empregado; e se eu fosse você, o levaria embora o antes possível, para o seu bem.
Já estava levando o fusca embora quando de repente a polícia apareceu.
– Foi ele, seu policial, que bateu a chave de braço na cabeça de meu patrão.
– Hã? Como assim? – foi o que eu falei, para usar a expressão que a minha filha tanto gosta de usar.
– E ainda por cima é cínico – disse esse discípulo da JARARÁCA.
Os policiais acreditaram. Me levaram em cana; mas eu disse e repito: Deus é Pai, e me tirou dessa fria. Logo depois, me soltaram, pedindo mil desculpas; que a polícia, por ser feita de homens, erra; que não existe um ser humano que não comete erros; que somos limitados, finitos; que não adianta estufar o peito e dizer eu sou, eu posso, eu faço, que...
– Ok, ok, ok, estou dispensado?
– Sim senhor.
Porque no fim das contas nós, homens, sempre acabamos fazendo o que a mulher deseja, toquei fogo no meu fusca querido, e comprei um carro do ano. A marca? Se eu disser talvez vocês não vão acreditar. Sim, o novo fusca. Comprei o novo fusca, esses que lançaram acho que no ano 2000 para cá. E a minha filha, por mais que pede com os olhos para dar uma volta nele, não o faz com palavras – se fizer, ela sabe o que o pai vai falar, que é NÃO!




AMOR VERDADEIRO

– Não, não. Você não quer casar comigo porque me ama. Você quer casar comigo para não dizer que não conseguiu alguém, para você poder mostrar para as suas amigas que tem um homem, nada mais que isso.
– Eu juro, amor, que quero casar com você porque eu te amo.
– Mas logo eu, Priscila? Tem tantos caras bons por aí. Gente que não fuma, não bebe, não faz besteiras. Você é uma mulher bonita, morena, tem os olhos verdes, pode conseguir o homem que quiser. Por que eu?
– Não sei por que você. O que eu sei é que te amo, Guilherme, e quero você, quero ser sua mulher, sua esposa, a mãe de seus filhos.
– Agora você disse tudo. Você quer ser mãe, é isso e só isso. Você quer ter um homem para te levar nos finais de semana para a casa do seu pai e mostrar para todos os seus parentes que você conseguiu casar, que você não é como a maioria das suas irmãs, primas e tias, é isso.
– Não, não é isso, Guilherme. Eu quero casar com você porque eu te amo.
– Me ama?
– Muito.
– E se eu não puder te dar filhos? Você sabe, eu tenho problema, o médico me disse que posso não ter filhos, e se eu não puder de dar uma criança, hein? Você vai querer ficar comigo mesmo assim?
– Por toda lei, eu vou.
– Olha, Priscila, eu fumo, e fumo um cigarro atrás do outro, e mesmo assim você ama um homem que fede à nicotina a metros de distância?
– Sim.
– Meu Cristo! Priscila, eu sou um sujeito nervoso. E se eu chegar um dia em casa, com raiva de todo mundo, do meu chefe, das pessoas que me olham feio na rua, das ofensas que me dizem por aí, e eu chegar em casa e quebrar tudo, bater em você? Você vai continuar comigo?
– Eu te amo.
– Me ama, me ama! Meu Deus do céu, como você pode amar um sujeito como eu? De vez em quando eu me injurio, abandono o emprego, deixo o chefe na mão, e fico meses em casa, sem fazer porra nenhuma, só na frente da televisão, tomando conhaque e fumando... Tem vez que estou tão revoltado que até pasta base eu fumo. Você sabe o que é isto, pasta base?
– Sei.
– Sabe mas não deve saber tudo. A pasta base é o lixo da cocaína. É uma droga dos Infernos. Foi o próprio demônio que a fez. Quem fuma, fica endemoninhado, feio mesmo; e se eu fumar pasta base e quiser dar uma surra em você, quebrar a casa inteira, mesmo assim você vai continuar casada comigo?
– Vou.
– Meu Deus. Eu não presto... Eu bebo, eu fumo, sou um porcaria. E se um dia der cirrose em mim e eu acabar doente, em cima da cama, sem poder trabalhar, sustentar a casa, você vai ficar comigo mesmo assim?
– Eu cuido de você.
– E a casa?
– Eu cuido da casa.
– Você é capaz de trabalhar fora?
– Sou capaz até de mendigar por você, amor.
– Meu Cristo. Eu fumo. Você vê o tanto que eu fumo. E sabe o que o cigarro dá? Dá câncer, Priscila. Vamos supor que eu tenha um câncer, uma enfisema pulmonar, e o meu pulmão estoura de repente, manchando o lençol da cama com sangue, você vai ficar ao meu lado? Não vai pular o fora?
– Jamais.
– Jamais?
– Nunca.
– Olha, eu bebo e fumo. E quem bebe e fuma pode ficar impotente, pode virar brocha. Você é capaz de ficar com um homem brocha dentro de casa? Você vai me amar mesmo se eu não der no couro?
– Eu quero casar com você, Guilherme.
– E se eu te botar chifres, hã? Mulher nenhuma gosta disto. Principalmente se o homem não consegue cumprir às obrigações dentro de casa. E se um dia eu estiver desempregado a um ano e ainda por cima botar um par de chifres bem grandes em sua cabeça, mesmo assim você vai continuar comigo? Vai?
– Vou, eu já disse que vou, Guilherme!
– Mesmo se de repente eu for atropelado e ficar paraplégico?
– Mesmo.
– Mesmo se eu ficar em cima de uma cadeira de rodas?
– Mesmo.
– Mesmo se eu for preso, e você ter que ir me visitar lá na Penitenciária Máxima?
– Sim.
– Mesmo se eu resolver apostar tudo o que tivermos numa mesa de baralho?
– Mesmo.
– Você só pode ser uma louca!
– Sou louca sim, e por você, amor.
– E se eu me matar, hã? E se um dia eu quiser pegar uma faca bem afiada, como essa aqui, e cortar meus pulsos, hein? Você vai me respeitar se eu morrer? Vai ficar viúva para sempre, sem se casar de novo?
– Guarda essa faca, meu amor. Eu já te disse que te amo.
– Você me daria a sua orelha?
– Como assim?
– Certa vez ouvi a história de um homem que era pintor e amava uma mulher. Certa vez ele cortou a orelha, colocou numa caixa e deu de presente para a amada dele. Você seria capaz de fazer isso por mim?
– Seria.
– Toma aqui a faca. Corta ela e me dá. Vai; anda, eu estou mandando.
– Mas, amor, eu vou ficar feia, sem uma orelha.
– Não me importa a beleza. Vai, quero ver se você é capaz de provar que me ama. Corta a orelha.
– Certeza, amor?
– Toda.
– Então está bem. Vou cortá-la. Aí, dói, mas eu vou cortá-la. Eu corto a minha orelha e te dou. Aqui, mas está doendo...
– Coragem!
– Ai!
– Para, para, está bom, Priscila. Você já provou que me ama. Daqui essa faca. Vou guardá-la. Vou me casar com você. Você é a mulher da minha vida. Não me recusaste a tua orelha. Você é minha. Não vou te dizer que te amo, porque estaria mentindo, o amor não existe. O quê existe é apego. Vou me deixar apegar a você, e vou me casar. E sabe esta carteira de cigarro? Vou jogá-la no lixo! Não coloco um maldito deste na boca, muito menos pasta-base. Não quero. Nem conhaque. Cadê a garrafa? Vou jogá-la fora. Pronto, joguei. Estou limpo. Cigarro nenhum vai estourar o meu pulmão, cachaça nenhuma vai desgraçar o meu fígado. Também não quero mais saber de jogo. Daqui para frente serei um homem de bem, bonzinho. Você vai me querer mesmo assim, Priscila? Um homem bonzinho?
– Já te disse, meu amor. Eu quero você do jeito que for...




A REALIZAÇÃO DE UM SONHO.

É um homem perverso, um iníquo
Aquele que caminha com falsidade na boca:
Pisca com os olhos, bate com o pé,
Faz sinais com os dedos...
– Provérbios, VI, 12-13.


De vez em quando, sempre aparece um pescoçudo que até então nem pescoço tinha. Ele começa timidamente, ganha a confiança de um, de outro, e quando consegue doze fiéis à sua volta, logo se torna um mestre com mil discípulos na rabieira, dispostos a fazer tudo o que ele manda. Foi assim com Otávio Nunes, um cidadão daqui da cidade onde moro, chamada Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul.
Naquele tempo eu era um dos muitos vereadores que queria ser prefeito. O Otávio Nunes nem existia ainda, era apenas um entre milhares de cabeçudos que andam à pé pela cidade, ou de ônibus. Está certo que eu andava à pé e tomava ônibus também, mas não era um cabeçudo, e sim um vereador, de terno e gravata, ciente das organizações sociais, de leis, de principados e potestades. De repente, o Otávio Nunes.
Havia mil discípulos junto com ele na Praça Ari Coelho, dizendo: estamos convocando os candidatos a prefeito para uma maratona de provas onde o povo poderá saber quem realmente é capaz de fazer de tudo por nossa cidade, de amá-la. O jornalista perguntou: que tipo de provas? São várias. A primeira delas, por exemplo, é ver qual dos candidatos fica mais tempo limpando o banheiro aqui da praça mesmo, que é um fedor insuportável.
– E as outras?
– Ver quem fica mais tempo morando na vila Canguru, sem direito à carro, ficando dependente só do ônibus.
– Tem mais?
– Tem sim. Tem a prova para ver quem trabalha mais tempo para esses sujeitos ricos em troca de um salário mínimo, e se ele consegue sobreviver com ele.
– Hum, interessante. E como será a pontuação?
– Ao vencedor de cada prova, três pontos; dois para o segundo colocado e um para o terceiro. Aquele que tiver mais pontos, a população votará em peso.
– E quem não quiser votar tendo em vista esta competição? Ou melhor: e para quem não aprova este método?
– Quem não aprova este método só pode ser um apátrida. E assim será chamado por nós, que vai ser a maioria. Todo mundo concorda e acha boa a idéia, pois somente aquele que passa pelos nossos sofrimentos poderá fazer algo justo por nós depois. Quem gosta da injustiça, não se una a nós!
– Mais alguma coisa, Otávio Nunes?
– Não, só isso. Fica aqui o convite aos candidatos. Em breve estaremos fazendo o convite pessoalmente. Por enquanto, é isso.
– Obrigado. É com você, Ricardo Freitas!
Depois desta reportagem ser exibida pela TV MORENA, houve um alvoroço no Parque dos Poderes. Primeiro, é claro, nós rimos, debochamos; mas depois que ele apareceu aqui com umas cem pessoas atrás dele, tratamos de colocar as cabeças para maquinar...

* * *

No meu partido, o candidato oficial a prefeito era o senhor Barbosa, um homem com a saúde boa, mas não apta para enfrentar os testes colocados por este Otávio Nunes. Os maiorais do partido, algum tempo depois, chegaram a pensar em não fazer parte desta maratona de imbecis, mas viram que corriam o risco de perder as eleições fatalmente. Descartaram então o Barbosa, e perguntaram se o seu Frederico encarava: eu? Limpar banheiro público? Me sujeitar à vontade do povo? São eles que têm de se adequar a nós!
Pensaram num outro, e lembraram-se do Ojeda, japonês que comia o pão que o filho, o pai e o avô do diabo amassavam com o rabo lá no Japão: japonês que é japonês gosta de desafios, da dificuldade. Ojeda, ao ouvir a proposta, não pensou duas vezes para responder: não! Por que, japonês?, interpelaram. Porque não, oras. Mas, japonês, disseram os maiorais do meu partido: tudo tem uma explicação. Ojeda então explicou: se eu fizer a vontade desses malucos, ficarei maluco que nem eles. Portanto: a minha resposta é não!
Tiveram que aceitar. Pensaram em um, em outro, até lembrarem-se do vereador mais insignificante de todos: eu. Pois, o Rosa, é um homenzinho que nem carro tem ainda; acho que nem casa, se duvidar; e ele vai tirar essa de letra, que nem atacante da seleção brasileira de futebol. Chamaram o Rosa, e eu fui, mais feliz que um ganhador de um reality show. Rodearam daqui, rodearam dali, e finalmente perguntaram: você quer; Rosa, ser candidato a prefeito?
O homem tem que aproveitar as oportunidades na vida, que geralmente, vem de uma em uma no intervalo de dez em dez anos. Então eu disse:
– Ôpa.
– Quer mesmo?
– Mas é claro que quero.

* * *

Candidataram-me a prefeito. Semanas depois, lá estava eu na maratona, concorrendo com os outros vereadores. Havia mais ou menos umas trezentas pessoas nesse dia ali em volta do banheiro da Praça Ari Coelho. É claro que eles não desceram aquelas escadas, mas ficaram ali perto, olhando quem ia ser o primeiro a encarar o fedor. Graças a Deus, não fui eu quem deu inicio.
O primeiro foi um candidato do PMDB, que não ficou ali por mais de cinco minutos, devido ao fedor, que era fortíssimo. Na frente da câmera, ele disse: realmente, temos que rever isso aí... Depois dele, um candidato do PT; que, também, não passou dos cinco minutos, dizendo para as câmeras que de fato o fedor é grande, que quase desmaiou. Em seguida, um candidato do PL, um liberal que era capaz de fazer tudo por dinheiro. O homem, para a surpresa de todos, ficou o dia inteiro e no outro dia voltou.
Ficou limpando o banheiro como se fosse da sua casa, e as pessoas já estavam gritando o nome dele. Mas daí, de repente entrou um bêbado, e urinou fora do buraco; depois vomitou, e fez uma sujeira digna de um mendigo miserável repleto de doenças físicas e mentais. O candidato liberal na mesma hora deu um tapa na cabeça do bêbado; chamou-lhe de porco, e lá na frente das câmeras da tevê, disse: o Brasil não vai para frente por causa duns desgraçados destes! Em um segundo, perdeu quase dois dias de trabalho.
Restava eu; pois, os candidatos do PPSD; quero dizer, do Partido Pobre Sem Dinheiro, sempre fica por último em tudo. Entrei, e assim que senti o fedor apertando as narinas, quase desmaiei. Joguei vômito para todos os lados, tive nojo do ser humano, e raiva. Depois, limpei o vômito, e comecei a limpar o banheiro também. O zelador deste banheiro deveria receber uns dez salários mínimos, por esse serviço. Pois, parecia que ali só entrava homem porco, doente, com infecção em tudo quanto é saída do corpo.
Eu fui tomando ódio pela Humanidade. Dava vontade de gritar, de explodir. Tive raiva de Deus, do pescoçudo do Otávio Nunes, da minha mãe que me colocou no mundo. E assim fiquei o dia inteiro. No dia seguinte, naquele fedor desgraçado, quase sai por umas três vezes. Mas, quando vi, estavam gritando o meu nome lá no lado de fora: eu havia ultrapassado o tempo do candidato do PL! Gostei do som, do povo me aplaudindo, e resolvi ficar uma meia hora a mais.
Fiquei. E ao sair, fui aclamado. Me pegaram pelas pernas e me levantaram, e saíram andando pelas ruas do centro da cidade comigo em cima, como se eu fosse um rei, um deus, um campeão. Com certeza, essa vitória me fez vencer todas as outras. Em todas elas eu era ajudado. Morei lá no Canguru, está certo, mas foi talvez o melhor mês da minha vida. Todo dia tinha festa, e tinha mulher nova para mim. No ônibus, quando não havia assento, todos levantavam, dizendo: deixe o prefeito sentar.
Já os outros candidatos, sempre reclamavam:
– Realmente, o sistema de transporte urbano em nossa cidade não é só o mais caro como o mais péssimo de todos!
– Eu não sei como o prefeito não dá assistência para essa merda de bairro. Aqui é o retrato fiel da miséria. Estão vendo aquela criança ali, com a barriga d’água? Olhando para gente com aquela cara de tristeza? A frauda suja pendurada na chupeta podre? É o mais comum aqui...
– Trombadinha e ladrão é o que não falta por essas bandas. Se eu for prefeito, algo que está quase que impossível no momento, eu darei um jeito nesta joça.
O mesmo aconteceu com os meus serviços em casa de ricos, ganhando a miséria do salário mínimo. Eles mal me deixavam pegar na vassoura, ou fazer algum esforço. Ficavam conversando comigo o dia inteiro, me dando suco, uísque, charuto. Conversas sobre política, religião e moral passavam longe de nossas bocas e ouvidos. Enquanto os outros; os outros falavam na televisão:
– Precisamos rever o salário dos trabalhadores. Agüentar um patrão arrogante e estúpido a troco de uma mixaria não é vida para ninguém...
– Eu não entendo esses patrões: só porque pagam uma miséria acham que podem tudo, inclusive montar em cima do funcionário.
– Precisamos rever os sindicatos, montar uma equipe de vigilância trabalhista, porque são muitos os exploradores e explorados.
– O sofrimento do povo é grande. Somos um faraó no Egito. Precisamos libertar o povo. Dar uma vida mais digna. Conheci muitos pais tristes, por não poderem dar o melhor para seus filhos. A tristeza deste povo é grande. E nós todos somos os culpados por isso, quando pensamos em nós mesmo, em nossas viagens, roupas caras e etc.
– A vida como ela é nos desafora, nos bate na face e chuta o nosso estômago.
Ora, eu não fiquei com medo dessas frases, dessas declarações humanitárias; pois, nunca vi alguém ganhar dinheiro com palavras, exceto um escritor ou outro, e mesmo assim quase velho já. Por isto, fiquei tranqüilo: a vitória era certa. Não havia nada de mais pior do que aquele banheiro fétido da praça Ari Coelho, e todos os homens sabiam disto – se agüentei ficar dois dias ali, eu era capaz dos maiores sacrifícios pela cidade.
E assim se sucedeu. Graças ao pescoçudo do Otávio Nunes, que me olhava com a cara feia, eu havia saído do cargo de vereador e conseguido ganhar a eleição para prefeito num partido que era o último, que tinha menos dinheiro. No discurso da posse, em cima do palanque repeti, com muita vibração, várias vezes essa frase: os últimos serão os primeiros, minha gente! – e o palanque quase caiu.
Mas ainda o meu sonho não estava realizado. E nem no primeiro ano se realizou, porque este período foi o de aprendizado. Mas no segundo, quando já estava malandro, na malandragem braba dos senadores e deputados, o meu sonho se realizou. E eu fui metendo a mão no dinheiro do povo; e comprei uma casona; e comprei um carrão; e abri uma empresa no nome de um sobrinho; e fiz viagens para o exterior; e tomei champanhe e vinho caro no navio; e conheci a praia de Fernando de Noronha, junto de umas três putas de luxo...




OS PRAZERES DA CARNE

Se pararmos de comer carne, como querem os vegetarianos, como que vamos deixar os fazendeiros cada vez mais ricos, cheios da grana? E os donos dos frigoríficos e os donos dos açougues? E os que vendem o sal, para os bois lamber? Não, não vai dar certo. Se deixarmos de comer carne muitas crianças não vão morrer de fome, e ninguém mais vai poder ganhar dinheiro em cima delas, como fazem essas milhares de ONGs que se dizem não ter fins lucrativos. Não, não vai dar certo.
Já imaginou? E para quem gosta daquele churrasco; daquela carne suculenta no espeto, com a gordura dourada, pingando no fogo do carvão e fazendo aquele barulho que dá tanta água na boca? Acaba-se o churrasco e com ele a alegria dos finais de semana, quando nos reunimos em volta da churrasqueira para zombar dos outros e beber cerveja gelada. Que alegria e felicidade podem dar uma mesa só de verduras, frutas, castanhas e legumes? Nenhuma! É o mesmo que ir à praia com a esposa.
E a cerveja? Se deixarmos de beber cerveja, como querem aqueles que são contra o álcool, vamos falir muitos empresários e muitos donos de bar. Muita gente vai perder o emprego, haverá uma taxa enorme de suicídio, e ninguém mais vai poder bater na esposa e nos filhos e colocar a culpa na bebida. Não; né-ca-de-ti-bi-ri-ba! Acaba-se o álcool e junto com ele os poetas. Raul Seixas já dizia: veja um poeta inspirado em coca-cola, que poesia mais estranha ele não deve expressar?
E em falar em coca-cola, outra judiação é querer que paramos de bebê-la. Aliás, se cortam o churrasco, a cerveja e a coca-cola vão acabar os obesos, os diabéticos, os cardíacos, os hipertensos; os donos das indústrias de medicamentos vão pros quiabos, ainda mais nessa crise que assola o mundo, com o Tio Sam usando aquele chapéu vermelho e branco estendido para os outros países, pedindo dinheiro tal como o mendigo na calçada, com a única diferença o sorriso esperto no rosto, próprio de quem sabe como é a vida.
Não, não vai dar certo o mundo que esses sujeitos de consciência querem.
Piorou o cigarro. Se deixarmos de fumar, como querem os antitabagistas, nossos pulmões vão ficar sempre vermelhinhos, bons, não dará câncer e uma boa parte dos pacientes dos hospitais vai desaparecer. E quem ganha a vida com a desgraça dos outros, como vai ficar? Um monte de médicos, de enfermeiras perderá o emprego. E os fabricantes de xarope, de mel, de remédio para o pulmão que se encontra preto, negrinho? Não vai dar. Já imaginou? Melhor do que dar aquela foda é fumar um cigarro depois; e se não pode fumar, que graça tem?
E depois fumar causa impotência sexual. Se todos os homens pararem de fumar, como que a indústria que fabrica o Viagra ficará mais rica do que já é? Hã? O que será dela e das milhares de pessoas que sobrevivem graças a essas indústrias que prestam um grande favor à Humanidade? O pessoal já conseguiu aprovar a lei que proíbe fumar em locais fechados, e agora querem que paramos de fumar até ao ar livre? Assim o Brasil não vai para frente, nem o mundo!
Outra coisa ruim é esta história de fazer sexo com camisinha. Metade do prazer fica retido naquele plástico frio. Ninguém pega AIDS, sífilis e gonorréia, e mais uma vez a Medicina sai perdendo. Assim não vira. Essa história de ter só uma parceira é para homem que vive dentro de casa, com a família. Agora eu te pergunto: este tipo de homem sabe viver a vida? Sabe nada! E por isto que sempre vem com este papo, de corta isto e corta aquilo...
Quando é que vamos ser livres, meu Deus?




TESTEMUNHA OCULAR

Em todas as vezes que Alberto levantou a guarda com uma mão e a espada com a outra, ele se deu mal. Se contasse nos dedos o tanto de processos que poderia ganhar caso tivesse provas; isto é, testemunha ocular, as suas duas mãos seriam poucas. Se contasse pelos fios de cabelos a quantidade de vezes que teve de engolir um desaforo, uma vergonha ou humilhação precisaria de uma peruca, mesmo não sendo careca...
A vida é dura.
Injusta e desonesta, principalmente quando se está no papel de submissão. No direito dos direitos trabalhistas, o vivido no dia-a-dia, há apena um dever e um direito para o patrão e o empregado: o primeiro tem o dever de pagar e o direito de dar a ordem que bem quiser; enquanto o segundo tem o direito do salário e o dever de obedecer, nada mais que isto. Uma troca justa, não acha?
O problema se dá quando um dos dois começa a infringir essas duas regras fundamentais, e isto acontece quase sempre. Tudo quando começa, começa uma maravilha, para ambos os lados. Mas depois, no desgaste da rotina, tudo leva para a atração do confronto. Quando não é o patrão insatisfeito, é o empregado; e quando não é o empregado, é a mulher do patrão. Ops. Tira a mulher do patrão, ela não tem nada a ver com a essa história, ou tem?
No último serviço em que Alberto trabalhou; num posto de gasolina, foi desse jeitinho, tal como descrevi: no começo foi a maravilha das maravilhas; mas depois, depois dos sete meses exatos, começou a atração do confronto. Ou começou antes? Nunca se sabe. O que se sabe é que geralmente começa assim: o patrão sai lá da sala dele, as despesas são muitas e os lucros são poucos, e descarrega seus relâmpagos no pára-raios, que é o funcionário.
O funcionário, na maioria das vezes, acha que está trabalhando muito e ganhando pouco, que merecia coisa melhor, viajar no fim de ano para praia, que nem o patrão. No ônibus ou em cima da bicicleta, ou até mesmo na moto ou no carro velho, ele acredita que merecia está andando com a camionete igual a do chefe. Não é todos, vale lembrar. Há muita gente conformada com o arroz e feijão. Mas, lá no subconsciente de cada empregado, essa história se repete desde quando o capitalismo é capitalismo.
Alberto já estava ficando nervoso. O seu Ricardo também estava ficando nervoso. Um olhava para outro medindo o corpo, a massa muscular, a força. Por mais que um homem seja grande e forte, há sempre um ponto fraco. É no ponto fraco que se bate. Qual é o ponto fraco? O seu Ricardo era na orelha. No Alberto, era no olho. Brigas. O patrão saindo lá da sala dele, com o corpo todo rígido, armado, e soltando aquelas palavras que nos gibis são representadas assim: #&#!><@#$%!!! Alberto olha de lado: ninguém viu. Nessas horas, ninguém vê. Nem para rir. Eu não vi, eu não sei, eu não estava – eis o sambinha da moda no Brasil. Em todos os pontos altos e baixos do posto de gasolina, uma câmera filmadora. No banheiro, tinha que se virar, para ninguém ver as suas vergonhas. Era vigiado oito horas por dia. Nos últimos empregos, perdeu tudo o que podia ganhar por falta de provas, por falta da testemunha ocular. Um patrão, por mais ranzinza que é, por mais chato que seja, sempre tem amigos. Os amigos vão, olham, ficam ali, embaçando, rindo não sabe o funcionário de quê. Na hora do confronto, são a eles que o patrão recorre. E os funcionários, recorrem a quem? Se ninguém viu, nem soube, nem estava lá? Alberto ganhava um salário mínimo. Todo o seu dinheiro ia para dentro de casa. Não sobrava nem para cerveja: as crianças pequenas carecem de uma vaca leiteira no quintal de casa. – Uma caneta filmadora? Prá que, Alberto? – Para colocar aqui no bolso, ó; e quando o patrão falar todas aquelas ofensas morais, é só mostrar para o juiz. – Alberto? Não é melhor abaixar a cabeça? Vagabundo que não gosta de patrão. – Gostar de patrão ninguém gosta, de verdade. A não ser que a pessoa ignora. – Ignora o quê, Alberto? – Ignora quando é passado para trás; que o patrão quase sempre só pensa nele... – Deus do céu, Alberto! E quanto que é essa caneta? Alberto disse o valor. A esposa respondeu:!@#$%¨&*$!!! Não teve acordo: se ele quisesse, que fosse ajuntando aos poucos. Assim Alberto fez, agüentando todos aquelas ofensas e desaforos. O ruim é que para as ofensas mais leves, o patrão até faz na frente dos outros; mas quando se é para dizer exatamente aquilo que ele pensa, o teatro se faz à sós, sem público e de cortinas fechadas – dias atrás vi na televisão uma mulher que processou o patrão por danos morais. Motivo? Ele chamava-a de feia e burra quando estavam sozinhos... Alberto finalmente comprou a caneta filmadora que valia dois salários mínimos. Passou a trabalhar de cabeça erguida, todo orgulhoso. Quando o patrão vinha lhe chamar de porcaria, de burro e imbecil, ele ria, mexendo na caneta no bolso da camisa. Em casa, ele passava as imagens no computador, um PC mais antigo que a mulher dele. Num dia, depois de filmar pela décima vez o seu patrão lhe dirigindo desaforos, falou: olha aqui, seu Ricardo, não agüento mais as suas ofensas, as suas humilhações, você me desrespeitando na frente dos outros ou à sós comigo, não agüento mais! – Quem não agüenta mais um funcionário porcaria e burro como você sou eu: tá demitido, filho de uma puta! Vocês sabem por que um homem fala isso para um funcionário? É simples. Ele não quer dar a razão. Enquanto ele trabalhou para conseguir tudo o que tem, os seus funcionários trabalharam para seus patrões conquistar tudo o que conquistaram. Além do mais, um funcionário gosta de beber cerveja no fim de semana, de gastar dinheiro à toa, e ama a sua vida de pobre. Como dar razão para seres humanos inferiores assim? Dias depois, na frente do juiz, o advogado do Alberto, na hora de chamar a testemunha puxou o DVD, pedindo para desligarem as luzes, e exibiu o longa metragem. Foi um dos filmes mais lindos que o advogado do Alberto assistiu. O juiz, comovido pela estética da opressão, fechou a cara para Ricardo, decretou a indenização por danos morais e bateu o martelo, encerrando a sessão. Lá fora, Alberto, às sós com Ricardo, disse: puta é a sua mãe, patrão burro e porcaria... A BURROLOGIA Aos vinte anos de idade já desconfiava de que iria me arrepender profundamente de passar a maior parte do tempo estudando, e só não tinha certeza porque todo mundo que conhecia me falava que o estudo iria me dar muitas coisas na vida, como um bom emprego, casa boa, automóvel do ano, reconhecimento intelectual, moral e assim por diante, ad infinitun. De fato, ganhei todas essas coisas, e mais: uma mulher maravilhosa que me deu dois filhos. Até aí, o que era desconfiança passou a ser visto por mim apenas como um medo juvenil, e passei até mesmo a estudar muito mais do que estudava há dez anos. Revolvi fazer doutorado, e passava mais tempo enfiado na universidade e nas bibliotecas do que na minha própria casa, junto da minha esposa e de meus dois filhos pequenos. Nesse tempo, ela, a mulher da minha vida, quase não reclamava da minha ausência: o título de doutor e o salário que ele iria me dar depois fazia dela uma mulher demasiadamente compreensiva. Mas a sua compreensão foi acabando aos poucos; e quando fui ver Laura não só reclamava da ausência do marido e pai de seus filhos como reclamava de tudo: do dia que estava muito quente, da tarde que estava muito seca, da noite que estava muito úmida, do chuveiro que saia água fresquinha, da cozinheira que fazia pratos para além de deliciosos. E a sua imensa compreensão acabou definitivamente no dia em que a universidade me presenteou com uma bolsa de pós-doutorado lá na Espanha. Para ela, isto foi o fim: ou era ela e meus filhos, ou era este maldito pós-doutorado na Espanha. Ora, como eu estava viciado num autor espanhol por nome de Xavier Zubiri, e também em todas as teorias que versavam sobre a inteligência, acabei ficando muito confuso, ainda mais porque iria fazer o meu PhD junto com o próprio Xavier Zubiri! Em crise, fui lutar contra os meus demônios. E eles me diziam: você vai se tornar um grande profissional do conhecimento; jamais faltará um grande emprego para você; e, se tudo correr bem, certamente serás um filósofo que entrará para a História – sem dúvida alguma, esses demônios eram mil vezes mais geniosos que o imaginado gênio maligno de Descartes... Desta luta, ressurgiu a desconfiança de que iria me arrepender amargamente de passar tanto tempo estudando, que eu devia levar à sério a minha digníssima esposa. Entretanto, não sei por qual demônio, acabei resolvendo ir fazer o meu pós-doutorado na Espanha – digo assim porque alguém soprou no meu ouvido de que na volta a minha esposa iria me perdoar. Fui, e passei dois anos fora. Na volta, meus filhos estavam grandes, mais altos do que eu, e rebeldes. Eu logo compreendi que a rebeldia deles vinha do excesso de hormônios, algo tão comum na adolescência, e pouco me preocupei. Já a minha meiga e querida esposa, estava agora muito mais nervosa do que antes, e reclamava inclusive de Deus, um ser tão Sublime e Bondoso que não é capaz de fazer mal a ninguém. Ao vê-la assim, fiquei na dúvida se compensava pedir a ela para voltarmos a ficar juntos. Depois de refletir bastante, descobri de uma vez por todas que a Laura era realmente a mulher com quem eu devia viver nesta Terra tão ingrata. Falei com ela, me perdoou, e voltamos. Contudo, o seu nervosismo e a sua irritação me deixavam doido – e mais que isso: solitário. Eu queria partilhar com ela a minha experiência na Espanha, falar sobre os costumes deste povo, de lugares e etc. Eu queria, a cima de tudo, falar de meu amigo Xavier Zubiri. Mas, era só pronunciar estes dois nomes, Espanha e Xavier Zubiri, para a minha geniosa esposa virar um animal bastante perigoso: uma onça protegendo seus filhotes era pouco perto dela. – Lá na Espanha... – Não quero saber da Espanha! – O Xavier Zubiri... – Dane-se o Xavier Zubiri! Ela não queria ouvir esses dois nomes nem mesmo da boca de um burro ou no canto de algum passarinho. Por isso, dentro de casa eu não falava deles nem mesmo para os meus filhos, que estavam se tornando cada vez mais drogados. – E você esperava o que deles, Josemar? – Que pelo menos fossem inteligentes! – E iam puxar a quem, para isso? – Ao pai. – Mas o pai é inteligente, por acaso? A minha adorável esposa se tornara uma mulher desgraçada; os meus filhos, uns desgraçados; e eu, um doutor burro. Uma vez ciente disto, comecei a me arrepender de ter passado tanto tempo na vida estudando, e vi que não tinha valido à pena. Desde então, decidi de uma vez por todas nunca mais estudar alguém inteligente, como fiz com Xavier Zubiri. Ao invés disto, passei estudar os burros, pois para entendê-los não precisa de livros, nem de mestrado nem doutorado: basta assisti-los. Já esbocei algumas teorias sobre a burrice, coisa que até hoje nenhum filósofo fez, e as coloquei, em partes, no papel. E se Deus permitir, divulgarei a minha nova ciência, da qual intitulei de “A burrologia”. O BANQUETE CONTEMPORÂNEO

O SOLIPSISTA: Eu quero que você me prove, sem usar da violência, que tudo não é um sonho dentro do sonho...
O EPICURISTA: Tome um trago deste Malbec argentino, meu amigo, e verás que não.
O SOLIPSISTA: Eu tomo. Hum, que maravilha! Maravilhoso como o sonho. Logo, estamos sonhando.
O REALISTA: Não, não estamos sonhando! E ainda que estivéssemos, este banquete acabará. Logo, o sonho terá fim, nos mostrando que a vida é real.
O IDEALISTA: Real? Que real? Tudo é uma idéia dentro de uma idéia!
O PRAGMATISTA: Deus do Céu! Como vocês são tão inúteis nessa discussão!
O EXISTENCIALISTA: Deixe eles discutir, se angustiar. A angústia é o principio de toda a filosofia!
O SENSO COMUM: Que papo mais bravo este! Vamos comer, oras! E vamos beber enquanto é tempo!
O ATEU: Eu não sei por que não me enforco...
O RACIONALISTA: Você não se enforca porque tem medo...
O FILÓSOFO DA COMUNICAÇÃO: Como eu estava dizendo, senhores, não há verdade sem consenso...
O NIILISTA: Lá vem ele com ironias...
O FILÓSOFO DA COMUNICAÇÃO: A era da ironia já passou, bem como a filosofia solipsista destes. Temos que levar todos os assuntos à comunidade ilimitada de comunicação a fim de que tenhamos uma síntese transcendental da interpretação mediada linguisticamente!
O ATEU: Como é que é mesmo?!
O NIILISTA: Se ele não está com ironias, está com utopias. O mundo não precisa mais de ilusão. Nem da verdade. O mundo precisa assumir a sua condição de mundo.
O EPICURISTA: O mundo, na verdade, senhores, precisa de um banquete como esses...
O FILÓSOFO DA LIBERTAÇÃO: Agora sim, hã? Falou pouco mais falou o essencial... Mas, todos têm que ter o direito de participar!
O REALISTA: Ah é? Então porque você não trouxe aquele aleijado que estava sentado ao pé da porta, pedindo esmolas pelo amor de Deus?
O FILÓSOFO DA LIBERTAÇÃO: Vamos comer?
O EPICURISTA: Agora o senhor falou a minha língua! Me passe aí esse peru assado, senhor solipsista.
O SOLIPSISTA: Falou comigo?
O ATEU: Não, foi o seu gênio maligno que falou com você mesmo.
O SENSO COMUM: Ué, senhor ateu? Está acreditando até em gênio maligno agora, é?
O ATEU: Não te conheço. Quem foi que te convidou?
O SENSO COMUM: O filósofo da comunicação.
O ATEU: Ué? Agora até burro pode participar dos banquetes filosóficos?
O FILÓSOFO DA COMUNICAÇÃO: Quem disse que o senso comum é burro?
O ATEU: É sim. Quer ver? Ei, senso comum? Você acredita na existência de Deus?
O SENSO COMUM: ô.
ATEU: Viu?!
O FILÓSOFO DA COMUNICAÇÃO: E quem disse que acreditar na existência de Deus é sinônimo de burrice?
O ATEU: Eu.
O FILOSOFO DA COMUNICAÇÃO: Olha, não vou discutir sobre isso com você. Esta discussão, aliás, é retrógrada, já passou. Ficou lá na Idade Média e Moderna. Os assuntos são outros. O senso comum, igual esse sujeitinho que aqui conosco está, é mais esperto do que todos nós juntos...
O ATEU: Ah, é?! Então me prove!
O FILÓSOFO DA COMUNICAÇÃO: Eu mesmo nunca vi esse sujeitinho nem mais magro e nem mais gordo. Nem na Grécia, nem na França nem muito menos na Alemanha. Ele se aproveitou da minha filosofia e aqui entrou, sabendo que se eu expulsá-lo estarei caindo em contradição performativa!
O FILOSOFO DA LIBERTAÇÃO: Quer que eu o tire para fora?
O REALISTA: Acho bom não. Que ele sirva de exemplo para o solipsista e para o idealista, para verem que enquanto acreditam que tudo é uma idéia dentro de um sonho, quero dizer, que tudo é um sonho dentro da idéia, ah, não sei, para eles verem que enquanto sonham, os espertinhos aproveitam...
O SOLIPSISTA E IDEALISTA: Ei?!
O EXISTENCIALISTA: Já estou ficando agoniado com essa discussão.
O EPICURISTA: E eu? Viemos aqui para comer ou para filosofar?
O PRAGMATISTA: Os dois. Não podemos viver só da teoria. Como já disse o grande filósofo, primeiro comer, depois filosofar.
O SENSO COMUM: Primeiro viver, e não comer.
O REALISTA: Estão vendo? Como é espertinho esse senso comum?
O FILÓSOFO DA COMUNICAÇÃO: Já estou pensando em abandonar a minha filosofia...
O EPICURISTA: Entra para a nossa...
O ATEU: Ou para a minha...
O SOLIPSISTA: Olhem, enquanto vocês brigam como se fossem donos de partidos políticos, posso, senhores, fazer uma rápida consideração?
TODOS: NÃO!
O SOLIPSISTA: Ei, até você, filósofo da libertação, me excluindo?
O FILÓSOFO DA LIBERTAÇÃO: Você é pobre, é? Não é. Você é um europeu burguês. O europeu burguês é a causa da desgraça dos latinos americanos. A minha filosofia é: liberte o pobre. Inclui o pobre, por amor a Javé!
O IDEALISTA: Ih, lá vem ele com esse papo de Deus judaico...Você precisa se decidir, filósofo da libertação, se vai ficar com a Filosofia ou se vai ficar com a Teologia...
NIILISTA: Olha aqui, senhor filósofo da libertação, se é que existe uma verdade, a verdade é que aqui é um banquete, não um salão da igreja.
REALISTA: Agora eu gostei! É bom saber definir as coisas... O que é e o que não é! Se não, daqui a pouco o senso comum aí sairá daqui falando que o nosso banquete na verdade era uma reunião de terroristas.
O SENSO COMUM: E não é?
O ATEU: Viram? Vão acreditando em Deus, em explorados, em coitadinhos, em prisioneiros do sistema para vocês ver...
O IDEALISTA: Come um pouco, ateu. Aqui tem uns doces. Quem sabe adoça a sua vida...
O EXISTENCIALISTA: Eu sei porque ele anda assim, desse jeito, revoltado com a vida... O ateu não está conseguindo mulher, é isso!
ATEU: Ô existencialista?...
O EXISTENCIALISTA: Diga?
O ATEU: Em qual centro de macumba você anda freqüentando, hein?
O EXISTENCIALISTA: No centro de macumba da sua mãe, ateu hipócrita.
O FILOSOFO DA COMUNICAÇÃO: Epa, acho melhor vocês dois entrarem num consenso, num acordo, e parar de brigas, porque assim dá congestão, não é senhores?
O REALISTA: Fora que discutir aumenta a pressão arterial, força as glândulas da garganta...
O EPICURISTA: Vamos comer ou não?
O FILÓSOFO DA LIBERTAÇÃO: Qual é a pressa? Esse banquete não é uma homenagem ao banquete de Platão? Está lá no livro que esse banquete durou três dias e três noites! E que Sócrates bebeu e comeu por esses três dias sem cair no chão, como caíram os demais...
O NIILISTA: Estão vendo a ingenuidade deste filósofo, não estão? Acredita em tudo... Por isso que lá em casa eu não deixo filho meu chegar perto da Bíblia! Porque dá nisso aí que vocês estão vendo...
O FILÓSOFO DA LIBERTAÇÃO: Você quer que eu te parto a cara?
O FILÓSOFO DA COMUNICAÇÃO: Antes, tentem um acordo.
EPICURISTA: Deus do céu! Nunca mais me chamem! Por isso que prefiro virar as costas para o mundo. Vamos desfrutar e filosofar com amor ou vamos discutir que nem o gênio do solipsista gosta?
O SOLIPSISTA: Ei, não tenho nada a ver com isto não! Nem meu gênio maligno. Não é, gênio?
O SENSO COMUM: é.
TODOS: Cala a boca!...



COMO VENCER NA VIDA.

Não sou um escritor de livros de auto-ajuda; e se fosse, com toda certeza jamais seria um best-seller. Isto porque sou um desses sujeitos insuportáveis que só fala a verdade, somente a verdade, nada além da verdade; enquanto que a maioria destes best-sellers tende para o ilusionismo, inventado mil teorias de como ficar rico. São todos uns mercadores de ilusão, não passam disto. Aliás, se fosse seguir o conselho deles, até hoje seria um josé-ninguém na vida, e não teria tudo o que tenho, que é muito.
Mas, de qualquer forma, vou contar aqui o verdadeiro segredo de COMO VENCER NA VIDA. Para isso, vou começar do início, a contar primeiramente como era a minha vida. E sabe como ela era? Uma verdadeira merda, literalmente – quem hoje me vê assim, levando uma vida farta e rica; andando de carrão do ano que muitos doutores por aí gostariam de ter; morando num duplex que jamais algum dos meus parentes moraram; viajando para lugares onde só os magnatas e desembargadores podem viajar; não acredita o quê um dia fui nesse meu passado fétido e nojento...
Tudo começou quando uma fossa lá em casa entupiu. Eu não tinha dinheiro, meu irmão não tinha dinheiro, a minha mãe não tinha dinheiro algum para chamar um desentupidor de fossa. E; como eu era o único desempregado dentro de casa, com tempo e energia suficiente para ao menos tentar resolver o problema, resolvi arriscar; pois pelo menos assim estava fazendo alguma coisa, sendo útil, e não um vagabundo, desses que só porque não conseguem um emprego deixam de fazer tudo, inclusive tomar banho...
Quem ficou do meu lado nessa decisão de eu mesmo desentupir a fossa de casa foi um vizinho, amigo meu. Descendente de japonês, o homem. Ia me ajudar, mas sem meter a mão na merda. A sua ajuda iria ser apenas verbal. E lá fui eu... Abri a tampa da fossa, senti o fedor nojento, enfiei o arame cano à dentro, puxei, enfiei novamente, e assim fiquei, nesse vai e vem, tirando a sujeira. Até que de repente, senti um gosto estranho na boca, e vi que havia engolido merda. Cuspi, quase chorei, resolvi que era melhor parar, deixar tudo como estava; mas Ricardo não deixou: se você é homem mesmo, de verdade, com cabelo no saco e tudo o mais, vai até o fim!
Eu já estava cansado de fugir dos desafios, dos outros passarem por cima de minha honra; e por isto, decidi que ia desentupir àquela fossa nem que isto me custasse mil anos, a fim de provar para esse japonês quem era o homem de verdade ali! Fiquei furioso, enfiei o arame com raiva, puxei; enfiei novamente, e fiquei assim, nesse vai e vem, tirando a sujeira, até conseguir. Era um fedor insuportável. De vez em quando, engolia fezes. Cuspia, tentando me livrar do gosto horrível. Mas não havia jeito: uma vez que você acaba comendo merda, o paladar fica impregnado por um bom tempo; e por mais que você cuspa, a impressão do gosto fica gravada na gente como que para sempre.
Agora, imagina conviver com esse gosto por vários dias seguidos, várias semanas, anos. Foi assim comigo. Depois desse dia, em que finalmente conseguir resolver o problema da fossa lá em casa, começou aparecer serviços deste tipo para mim. Até hoje desconfio que foi o Ricardo quem me indicava – ele fala que não. Vinha gente de toda a vizinhança, pedindo-me para desentupir fossa. Então, lá dava eu, um recém formado em Administração de Empresas, com diploma debaixo do braço desentupindo fossa de gente que não sabe o que é uma universidade, o que é uma mensalidade da universidade, o que é a vergonha quando não se está em dia com eles.
E você até pode dizer: alguém formado em Administração de Empresas jamais iria desentupir fossas para sobreviver. E eu direi, com todo o respeito: em que país ou mundo você vive? Diploma não é mais garantia de nada hoje em dia, e assim como uma boa parte dos brasileiros que conseguem cursar um nível superior com muito esforço, eu estava encontrando dificuldades também para arrumar o meu devido e merecido emprego, o qual estava lutando já há dois anos para obtê-lo, entregando currículo em tudo quanto era empresa que via pela frente.
Merda de vida era essa minha vida de desentupidor de fossas. E; como o emprego podia esperar mas o dono da casa que cobrava o aluguel não, aceitava desentupir fossa até dos meus inimigos e dos que tinham inveja de mim. Eu dei muito desse gostinho para eles. Mas cobrava caro, é certo. Se queria, queria; se não queria, chamassem outro. Então eu ia, metia a mão na merda, na fossa, nos canos sujos de graxa, óleo, comida, em toda aquela gosma feia e asquerosa, e concluía o serviço como quem termina um trabalho pesado, como quem se livra de um funcionário preguiçoso.
Por um lado, até que era bom; pois, sentia uma satisfação enorme, um orgulho muito grande quando dava conta do recado. O único problema é que o cheiro de merda não saia de jeito nenhum de minhas roupas, do meu corpo, do meu nariz. A minha mãe, sempre que me via sofrendo em cima do tanque, tentando à todo custo tirar o cheiro das fezes em minhas vestes, me perguntava, com aquela cara de sofredora, de quem tem piedade, dó, compaixão, se não era melhor eu parar com tudo aquilo.
As mães sempre são as primeiras a querer nos tirar do sofrimento merecido. Já os pais de verdade não: ver os filhos pegando no pesado, encarando todo tipo de desafio, é motivo para orgulhar-se consideravelmente. Quanto aos amigos e mulheres, sempre saem de perto quando vêem um homem na merda. O único amigo que ficou do meu lado foi o Ricardo, este meu vizinho descendente de japonês. Isto porque ele foi lá para o Japão e aprendeu a dar valor para todo e qualquer trabalhador: lá no Japão teve que transformar-se em dois, três, quatro, para no fim das contas não voltar rico para o Brasil, como imaginava que iria voltar.
– Voltei é com o nervo ciático todo fodido.
De tanto apertar parafuso de roda de carro na indústria onde trabalhava, com o passar dos anos a coluna e o nervo ciático do Ricardo ficaram comprometidas. Ele não podia inventar de agachar um pouco que, se bobeasse, não conseguia levantar novamente, porque o corpo não obedecia. Então ele ficava agachado por horas seguidas, de cócoras, até conseguir levantar. Era um sofrimento dos diabos, ele dizia. Mas homem que é homem não foge da luta; e eu, portanto, não podia fugir da merda.
E quanto mais fossa desentupia, mais currículo eu deixava nas empresas. Não podia ter um tempinho de folga para andar pela cidade, conversando com os empresários, com os industriais, com toda essa gente. Era sempre a mesma conversa: quando aparecer uma vaga, te chamo. E então eu esperava. Ficava alegre por uns dois dias, crente que desta vez iam me chamar. Mas passava um dia, dois, três, uma semana, um mês e nada!
Eu ficava enfezado com isto, mais nervoso que um homem sem amor. Nas minhas orações, eu blasfemava. Ajoelhado eu dizia: é isso que o Senhor quer para o seu filho, viver na merda? Se sim, até quando? Para sempre? Que tipo de Deus é o Senhor? Um Deus das desgraças? Que diabo eu fiz para Ti? Deus parecia um surdo, um cego, um mudo. E eu continuava na merda, vivendo da merda, sonhando com a merda. Quando vi, estava parecido com esses sujeitos que trabalham em oficinas mecânicas em beira de esquina, desses que andam sempre sujo, fedendo, com cigarro do Paraguai na boca, encardido. Eu havia me transformado num miserável, isso sim. As mulheres bonitas, se me viam de um lado da rua, passavam para outro, a fim de me evitar, de passar perto. Só não tinham nojo de mim as feias, as gordas, as desdentadas.
De vez em quando, tomava um banho de uma hora mais ou menos, passava um perfume, vestia uma roupa limpa, e saia para algum lugar, a fim de arrumar uma namorada bonita. Mas era incrível. Parecia que elas sabiam quem eu era. Não podia nem chegar perto para ser repelido! Até hoje eu fico pensando: como elas conseguem saber que um cara está na merda? Intuição feminina?! É isso?! O jeito era apelar para as feias. Essas me aceitavam na mesma hora. Me chamavam para dançar, me apresentava para as amigas.
Depois, elas mesmas faziam questão de me levar para debaixo de uma árvore escura, em alguma rua deserta. Ou então, quando por um milagre tinha dinheiro sobrando no bolso, para um motel. Agora, eu te pergunto: não era motivo para desistir da vida? Eu não era feio, nem burro. Eu era apenas um azarado, um desgraçado, um excluído, um Zé Ninguém que não pode ter uma oportunidade para subir na vida, mesmo com um diploma na mão. Eu era um rapaz bonito, inteligente; mas que por ironia do destino, estava na merda, desentupindo fossa.
Todos no bairro sabiam disso. Alguns até que aprovavam: é isso mesmo, José, temos que trabalhar, não importa no quê; mas, a maioria dizia, eu sei que dizia: olha lá, um rapaz tão novo, com dentes brancos, rosto bonito, olhos azuis, formado, e desentupindo fossa... O que será desse nosso Brasil? Ter diploma não mão não é mais garantia de nada, do que adiantou ele ter estudado tanto?
Em quase nada.
Tanto é que não tenho orgulho nenhum da minha juventude. Quando vou à casa de algum amigo rico, e lá está ele sorrindo na foto, abraçado com uma garota bonita, ou com a roupa da formatura ou atrás de alguma mesa de escritório, todo orgulhoso, logo fico de mau humor, e nem toco no assunto.
Mas, o pior de tudo mesmo era nos finais de semana, na casa de meus avôs, onde me encontrava com os parentes todos. Meu avô era o primeiro a me humilhar na frente de todo mundo, dizendo que eu não tinha fé; que eu era burro; e que um burro tem que acabar mesmo desentupindo fossa, na merda. As minhas tias, junto com a minha mãe, me protegiam, falavam por mim, porque eu não queria magoar o meu avô; não queria dizer para ele eu posso até estar desentupindo fossa agora, mas não estou pedindo nenhum dinheiro para você, nem um centavo. E além disso, tinha vontade de dizer: o dia que eu ficar bem, vou continuar te amando do mesmo jeito; tanto você quanto todo mundo presente aqui.
Isto porque meus tios, meus primos e até mesmo meus sobrinhos não tinham respeito algum por mim. Certa vez, um deles, que mal sabia falar, me disse: você é um derrotado. Eu perguntei: o quê?! Um derrotado. Quem disse isso para você?, perguntei, embasbacado. Meu pai, respondeu o menino. Guardei isso para mim. Por vários dias, enquanto desentupia fossa e engolia merda para sobreviver, lembrava dessas palavras vinda de um sobrinho. Foi quando decidi sair da merda sem esperar por um emprego como administrador. Passei a guardar dinheiro, a cobrar um pouco mais caro pelos meus serviços, e pensar num negócio para abrir.
Um restaurante? Uma pizzaria? Uma loja de sapatos? Uma sorveteria? Pensei, refleti, e veio a ideia de montar uma auto-fossa, já que eu estava no ramo e entendia muito bem como tudo funcionava. Três anos depois, fundei a minha companhia de esgotos; prosperei; comprei carro, casa, viajei, conheci tudo quanto é tipo de mulher, de vinho – de Carbenet Sauvignon ao Vinho do Porto. Fiz amizades com quem jamais imaginava que um dia iria fazer; me tornei amigo de alguns homens mais ricos do Brasil e do Mundo. Fui feliz, e casei.
Tive dois filhos. E por mais que eu tenha dinheiro para fazer o que quiser; inclusive rasgar e jogar no lixo, não facilito nenhum pouco a vida para eles. Não dou nada de graça. Nem empresto dinheiro, mas ofereço oportunidades. Primeiro, as ruins, que é trabalhar como todos os desentupidores de fossa de minha companhia, a fim deles comerem merda que nem o pai e aprender a dar o valor no meu e no dinheiro deles; depois, dou as oportunidades boas. Se trabalham, ganham. Se não trabalham, não ganham. E assim é a vida. Nada cai do céu. O segredo de COMO VENCER NA VIDA é esse. Encarar a merda da vida, pegar o que ela nos oferece, e fazer dela algo melhor... Ou não é?



ZÉ CARLOS E A LITERATURA

Elias, o grande – não o da Bíblia, mas o daqui da minha cidade – achou engraçado quando soube que o namorado de uma de suas netas queria ser escritor. Ele também desejou isso, na inocência de sua juventude. Mas só foi ver como era a vida dos escritores para logo em seguida pegar os seus dois romances, um livro de contos, um de poesia e tocar fogo.
– Tocou fogo, Elias?
– Toquei.
– Por que?
– Por que, por que... Você sabe que o fogo e o divino estão muito próximos, não sabe?
– Sei.
– Pois então. Foi uma forma de exorcizar. De não sair perdendo. De esquecer os dez anos de erro. De tudo o que deixei de fazer, de ganhar, de viver por um troço que não trás felicidade a ninguém.
– Tem escritores que são felizes, Elias.
– Quem?
– Sei lá. Algum.
– Não conheço...
Eu também não conheço. Está aí uma coisa difícil de ver: um escritor feliz... Mas, voltando à estória: Elias, o grande. Nos domingos, a família aparece, para o almoço. E num desses domingos, uma de suas netas trouxe o namorado, Zé Carlos. Foi; mas por insistência da namorada, porque a sua vontade mesmo era a de ficar na frente do computador, trabalhando no livro que estava escrevendo. Na primeira oportunidade que teve, Elias sentou ao lado dos dois.
– Trabalha?, perguntou ele, para Zé Carlos.
– Sim.
– Onde?
– No cartório de meu pai.
– Ouvi dizer que você é escritor...
– Sim.
– Eu, quando era jovem, era metido a escritor também.
– Vô! – disse a namorada, lhe censurando.
– Era? Interessante. A conversa começou a melhorar. Pensei que o senhor só falava de negócios...
Um consolo: se não estava em casa escrevendo, pelo menos iria falar sobre Literatura.
– Não. Na verdade, não sei. Será que eu falo só de negócios? Para um empresário, o mundo é um negócio. Se falo que viajei, quem escuta pensa que estou fazendo propaganda. E no fim das contas, estou. Querendo ou não, estou. A vida é uma droga, meu filho.
Elias é assim mesmo dentro de casa: brincalhão.
– Daí, meu filho, eu fui vendo as coisas. Vi a vida do escritor, do quanto que ele ganha. E descobri que trabalha-se muito e ganha-se pouco.
– ...
– Sem contar que aparecer na capa de revista famosa só é grandes coisas para os escritores do anonimato e para o possível comprador...
– Vô!
– Calma, minha neta, só estou conversando com o rapaz...
– Pode falar, seu Elias.
– O que eu estava falando mesmo?
– Sobre os escritores.
– Ah, sim. Não vale à pena.
– Vale sim.
– Por quê?
– Por quê? Por quê?... Oras, Fernando Pessoa já dizia: tudo vale à pena quando a alma não é pequena...
– Ah, é? E você vai dar confiança para um português? Então anota aí. É um brasileiro quem está falando. Para uma alma grande, nem tudo vale à pena, meu filho.
Imerso no mundo das idéias, ficou preso na frase de efeito; enquanto ele, o seu Elias, o grande, o magnífico, o conhecedor profundo do argumento astuto, com o sorriso paralisado no seu imenso rosto, retirou-se rapidamente, sem chance para a réplica, dizendo:
– Agora, vou deixar vocês à vontade. Fique à vontade, meu amigo.
E saiu de perto.
– Seu avô é engraçado...
– Achou?
– Achei.

* * *

Nesta época Zé Carlos estava escrevendo um romance que falava sobre o tráfico de drogas na cidade. Foi à fundo. Entrava e saía das bocas de fumo, comprando droga e nunca usando. Jogava fora, nos terrenos baldios. Fez amizade com alguns donos de boca de fumo, com traficantes, foi ao Paraguai três vezes. Os policiais estavam no meio. Não todos; é claro. E nem a maioria, vale lembrar. Mas, estavam no meio.
Num dia, assim que estava saindo da boca de fumo, a polícia apareceu, do nada. Só deu maconheiro e viciado em crack pulando o muro e correndo, inclusive o dono da boca. Zé Carlos foi o único que ficou ali imóvel, paralisado. Quando os policiais colocaram-lhe as algemas, e fizeram uma pergunta para ele, Zé Carlos não conseguiu dizer uma palavra: ficou como que um mudo, um gago...
Ao contrário dos tempos antigos, José não foi jogado na gaiola do camburão: foi no banco da frente. Também, não foi tratado com indiferença: o que estava na direção foi conversando com ele. Na delegacia, o delegado não lhe deu uma surra, nem o torturou. Os tempos são outros. Mas, os procedimentos eram os mesmos: que ele confessasse...
– Confessa, vagabundo!
– Confessar o quê?
– Quem é o dono da boca.
– Eu estou falando que não sei. Que eu só estava ali só pesquisando para escrever meu romance.
O delegado bufou:
– Sei. Romance... Você viu como ele é cínico, Juarez? – disse ainda para o amigo policial.
– Esse sujeito merece uma surra, delegado. Ou melhor, o que ele merece é ser atropelado.
– Atropelado? Que isso... Delegado, eu te juro. Não uso drogas. Você encontraram comigo algum pacotinho?
– Não encontramos mas nada nos garante que você jogou fora assim que ouviu a policia chegar.
– Então fica difícil eu provar – disse ele, e de repente, intuiu: – já sei. Vocês devem fazer um exame médico antes de mandar alguém para cadeia. Podem fazer em mim. Vocês vão ver que não uso droga nenhuma.
– Vamos fazer sim. Mas não pense que você está livre da cadeia. Vai dormir em cana até que tudo se resolva. E escute bem: você vai ter que falar quem é o dono daquela boca de fumo.
– Já te disse que não sei – falou Zé Carlos.
Antes de ir para cela, Zé Carlos ligou para o pai, pedindo que ele trouxesse seu computador e um advogado. Meia hora depois, apareceram. Encontraram com Zé Carlos atrás das grades.
– Já pagamos a fiança, meu filho. O delegado vai vir aqui antes de soltá-lo.
– Ok.
Dali um pouco o delegado apareceu, e Zé Carlos mostrou as suas anotações no computador. O delegado viu, e acreditando ou não, sabe Deus, disse:
– Que tal fazermos uma troca? Você diz quem é o dono da boca de fumo e eu finjo que nunca te vi na vida. O que acha?
Zé Carlos olhou para o advogado, que disse: fala logo quem é esse vagabundo.
Zé Carlos falou.
Dias depois, começou a escrever o romance. Terminou dentro de dois anos. Para ter uma opinião de fora, deu para alguns profissionais ler: o que ele levou dois anos para escrever não passava de jornalístico.
– Jornalístico?
– Sim.
– Não tem nada de literário?
– Tem.
– Mas?
– Não deixa de ser jornalístico.
Dois anos. Tempo para ter noivado, casado e tido um filho. Ou então, montado um negócio, prosperado, ficado quem sabe quase rico. Jornalístico?! Não há nada pior para um escritor saber que o que ele escreve não é bom. Lembrou-se de Elias. Tocar fogo? Lembrou-se de Cristo: homem sábio este, não ter escrito uma linha! E lembrou-se de Sócrates, outro sábio. E lembrou-se de todas as pessoas que não liam romances, contos, e poesias mas devoravam livros de Direito, Administração, Psicologia, Marketing, Web Designe e auto-ajuda.
O fogo tem uma relação muito próximo com o divino...
Não tocou fogo. Procurou as grandes editoras, foi recusado. Tentou uma na cidade mesmo. Uma editora que estava mais para gráfica do que para editora de verdade. Pagou pela edição. Fez o contrato: eles iam distribuir os livros nas livrarias, fazer propagandas e Zé Carlos ia receber conforme as vendas. Três meses depois, a editora fechou. Todo mundo sumiu, desapareceu. Deram o calote nele e em mais outros escritores. Foi às livrarias, tentar recolher o que era seu. Não conseguiu, porque não tinha a nota.
– Mas quem escreveu essa porcaria de livro fui eu!
– Eu sei. Mas você precisa provar que o direito da venda é sua. Vai atrás do dono da editora e pegue com ele o contrato que fizemos.
– Mas, como que vou atrás dele, se ele desapareceu do mapa?
– Aí eu não posso fazer nada, Zé.
Zé, Zé, Zé: Elias tem razão. Resolveu nunca mais escrever, a não ser no Inferno. Meses depois, enquanto andava tranquilamente na rua, foi abordado por um cara feio, que usava uma jaqueta militar e óculos escuros na cara. Tinha um monte de tatuagens no braço. Sem ter tempo para defender-se, levou um soco bem no meio do rosto. Viu um clarão, e caiu na calçada.
– Toma! Escritor, né? Como foi cair na sua, seu filho da puta! – foi dizendo ele enquanto chutava Zé Carlos.
– Para, para, para. Vamos conversar, meu amigo!
– Não tenho amigo acagüete.
Levou chute em tudo quanto é lugar, desmaiou. A ambulância apareceu e o levou para o Hospital, onde ele ficou internado na UTI, em coma. Duas semanas depois, recebeu alta. Em casa, pensou em escrever sobre essa sua experiência, quero dizer, tudo o que lhe aconteceu quando decidiu ser escritor, quando decidiu falar sobre o tráfico de drogas...
Por pouco não cedeu, diante do erro. Viver é preciso, escrever não. Foi até à namorada, neta do Elias, o grande, pedi-la em casamento. Aproveitou a ocasião e esboçou um projeto para o avô dela. Era uma empresa de fest food, que iria acabar com o Bob’s e o MacDonald’s. Elias, o grandíssimo, o maior, o empresário dos empresários, disse que ia pensar na idéia. Semanas depois, Zé Carlos casou. Um ano após, teve um filho. Hoje trabalha para Elias. Sempre que pode, fala do projeto. Mas Elias sabe que superar o Bob’s e o MacDonald’s é impossível, ainda mais aqui no Brasil...



SEMINÁRIO DIOCESANO

Não entrei para o seminário com outra intenção a não ser um santo; ou melhor, um padre santo. A primeira dificuldade que tive nesta minha luta espiritual foi quanto aos votos: no seminário diocesano só havia dois, o de celibatário e o de obediência. O quê era muito pouco; pois, assim sendo, o padre diocesano só não pode casar e desobedecer ao bispo; do resto, pode tudo, inclusive ter empregada doméstica na casa paroquial e secretária bonita na paróquia.
Eu não queria isso de maneira alguma para a minha santidade. Eu queria, além dos votos do celibato e de obediência, fazer os de castidade e pobreza. Perguntei ao bispo se isso era possível, quando na minha ordenação sacerdotal. Respondeu-me que não, mas que eu poderia fazer os votos direto com Deus; que eu podia muito bem ser um desses religiosos que negam a condição humana e não bebe uma gota de álcool que já acredita que está condenado ao inferno.
Que isso, bispo, foi o que eu falei. Ele, por sua vez, sorriu, perguntando-me se eu não gostava de brincadeiras. Deixei passar. E já que não podia fazer meus votos oficialmente, faria entre eu e Deus apenas, sem testemunhas. E assim, toquei a minha vida de seminarista para frente, encontrando outras dificuldades. A segunda; vale dizer, foi a da completa degradação dos seminaristas, que estavam ali no seminário apenas para mamar nas tetas da Igreja e praticar sexo entre eles, numa homossexualidade de fazer inveja a qualquer gay bem resolvido e safado.
Aliás, não há outro lugar melhor que um seminário religioso para um gay: ali ele terá um monte de seminaristas com a mesma opção sexual que a dele; e, ainda por cima, sem trabalhar terá duas faculdades, comida e roupa lavada de graça, com o único dever de não causar grandes escândalos na comunidade religiosa. Ora, a comunidade religiosa é nada mais nada menos que a pastoral, aonde todos os finais de semana íamos, de dois em dois, para dormir na casa dos fiéis.
Não vou entrar em detalhes no que acontecia nas pastorais, para não fazer abrir a boca do leitor, para não deixá-lo pasmo e perplexo. Ficamos, pois, somente dos portões do seminário para dentro, os quais os seminaristas viviam pulando, depois da meia-noite. Os que eram homossexuais, viviam as suas homossexualidades pelos quartos; os que não eram homossexuais, viviam revoltados e bêbados.
Mas é claro: tudo à surdina da noite, quando o reitor e os padres iam dormir. Então, eu me indignei e contei tudo para os meus superiores: fulano faz sexo com beltrano; que por sua vez faz com cicrano; que por sua vez faz com o primeiro, qual é o nome dele mesmo? Fulano. Isso, com fulano. Agora, quem não faz sexo com ninguém, dorme bêbado quase todos os dias; o alcoolismo aqui está beirando à loucura, reitor!
– Mas, todo mundo está bebendo?
– Exceto os que estão aqui apenas para estudar.
– E os que estão aqui só por causa da boa vida?
– Esses sim, estão bebendo e se amando.
– E por que você não faz o mesmo?
Eu só não dei uma de João Batista porque ainda não me considerava um santo perfeito. E também, porque quando fui falar com ele sobre todas essas calamidades, já estava em pecado, na condição de fofoqueiro. Em vez disso, engoli o desaforo e fui falar com Deus, pedindo justiça.
E a justiça divina veio; entretanto, ela nunca é da maneira que queremos. Dias depois, lá estava eu, sendo perseguido pelos padres formadores: bom dia, puritano, como vai? Boa tarde, moralista, tudo bem? Já se castrou hoje?
Eu só não saía na briga porque meu Deus prega o perdão e a misericórdia: se não fosse isso, partiria a cara deles no meio. Deixei para lá: o Inferno dava um jeito neles todos. E assim fui indo, denunciando sempre que podia. O engraçado é que eles nunca se esqueciam de me perguntar se eu era um ser humano. Eu falava que sim, e eles diziam: não parece...
Foi quando finalmente a minha vida de santo chegou ao fim. Eu estava lá na capela, fazendo as minhas orações, meditando, conversando com Deus quando de repente me chamaram na reitoria. O reitor, ao me ver, pediu para sentar na cadeira em frente à mesa dele. Sentei, e ele começou a falar, rodeando, para finalmente chegar à razão daquela conversa mole e fiada: Augusto, você está expulso.
– Expulso? Como assim?
– É que nós estamos olhando o seu comportamento e vimos que você não tem vocação para o sacerdócio.
– O que eu não tenho é vocação para a putaria, isso sim.
– Viu? É melhor para você. A sua vocação é para ser religioso. Até fizemos uma carta de recomendação para as comunidades religiosas. É só escolher: você pode ser franciscano... jesuíta, salesiano...
– Reitor?
– Diga, meu filho.
– Posso te fazer uma pergunta?
– Faça.
– E lá? É a mesma coisa que aqui?
– Você quer mesmo que eu responda?
– Não, não – eu disse, saindo; e fui embora, para nunca mais pisar no chão de um seminário religioso...



IRMÃ NOVA

Não é que Juarez tinha ciúme doentio pela irmã de dezessete anos, tão nova quanto bela. Nem de que havia ajudado a criar com tanto amor e zelo para depois um malandro ou outro vir e colocar tudo a perder. O que Juarez não queria era que a irmã ficasse grávida de um moleque vagabundo que nem condições de criar a criança tem; e depois, cair tudo em suas costas, ou melhor, nas costas de sua família.
Por isso, levava e trazia a irmã para onde ela queria ir. Levava e trazia a mocinha da escola, que lhe tratava mal na frente das colegas. Se tinha festa para ela ir, ia junto. Se havia um show do Bruno e Marrone, ia junto. Se era a estréia de um filme muito famoso no cinema, ia junto. Ia junto até no mercado, na soverteria. Era o sapato da mocinha, o guarda-costas vigilante, a pedra de tropeço para as suas ilusões e namoros.
Mas, não teve jeito: a menina estava apaixonada; falou com a mãe, o rapaz veio em casa, pediu a mão, jurou respeito, eterno amor e todas essas ridicularidades própria dos apaixonados com menos de dezoito anos.
– Tudo bem, ok, se amam? Se se amam de verdade, o Juarez podia vigiar...
Juarez fumava.
Levava a irmã na casa do rapaz e ficava de longe, vigiando e fumando. Havia vezes que fumava cinco cigarros durante o namoro. E dispensava os cuidados da mãe do rapaz.
O rapaz tinha uma irmã, de dezoito anos. Era bonita. Gostava do Juarez, achava ele engraçado, e um pouco bobão no começo. Com os outros rapazes, era recatada. Com Juarez, cheia de ironias, de provocações: por que você fuma tanto? Não faz mal para a saúde, Juarez? Como é que a namorada agüenta? Não tem namorada? Também, vive em cima da irmã, como é que vai arrumar uma? Você já terminou os estudos, Juarez?
– Já.
– E não trabalha?
– Só de manhã.
– Que vida boa, hein, Juarez?
– Estudei. Passei no concurso. Quem estuda e passa num concurso não pode ter a vida ruim. E você, estuda? Trabalha? Faz o que da vida?
– Só estudo.
– Que vida boa, hein, menina?
Com o tempo, foi pegando raiva de ser chamada de menina. Falava-lhe: pare de me chamar de menina como se você fosse um velho; porque velho você não é! Juarez ria. Mas não dava confiança. Pelo contrário: desconfiava de Laurinha. Para ele, ela estava agindo a favor do malandro do irmão, que não podia lhe ver de costas para relar na irmã.
– Ei?
– Que foi?
– Você sabe o que foi. Estou aqui, vendo tudo, que nem coruja. Cadê sua mãe?
– Não precisa chamar ela.
– Então, pare com as mãos.
– Ah, mano, vai caçar o que fazer! Vive enchendo o saco! Ninguém merece!
– Ninguém merece, é? Proíbo esse namoro e você vai ver o que significa merecimento.
– Relaxa, Juarez.
– E você fica na sua, menina!
– Eu já falei para você parar de me chamar de menina!
– E quer que eu te chamo do quê, hein?
O Juarez era um infeliz, um amargurado, que não sabe deixar a vida fluir. Que é que tem de mais, uma mão boba? Convidou o Juarez para ir com ela, a Flavinha e o irmão para o cinema, no shopping. Depois do filme, a parada na praça da alimentação. Ouviu coisas do tipo: você tem que namorar, Juarez; olha o tanto de mulher bonita à sua volta; e pare de reter a vida, para que você acha que existe camisinha e anticoncepcional?
Juarez se enfureceu.
– Dá a sua bolsa, Flavinha.
– Ih..., que é que você quer com a minha bolsa?
– Daqui. Deixe-me ver o que tem dentro.
– Isto é invasão de privacidade, posso te processar.
– Processa, ué? Vai, me passa!
– Não vou passar...
– Não vai, é? Vou fazer um escândalo. Viro a mesa para todo mundo ver.
Flavinha passou a bolsa.
Juarez virou e revirou a bolsa da irmã, sem encontrar nada. Olhou para o Ricardinho. Pediu-lhe a carteira.
– Passa a carteira.
– Prá quê?
– Não interessa o prá quê, rapaz, estou dizendo: passa a carteira.
– Eu chamo a polícia, o segurança.
– Ah é? Você chama a polícia e eu chamo o juizado de menores. Passa logo essa carteira, se você quer continuar namorando a minha irmã.
– Que isso, Juarez?
– E você fica na sua, menina.
Laurinha cruzou os braços, com a cara fechada.
Ricardinho passou a carteira. Revistou. Não tinha nem a sombra de uma camisinha.
– Satisfeito?
– Eu acho bom mesmo que tudo fique assim.
Dias depois, Laurinha jogou-se em seus braços. Ele quase interrompeu o afeto; mas ela lhe abraçou forte, fazendo Juarez sentir seus seios. Eu te amo, ela falou, em seu ouvido. Eu te amo, Juarez.
Dias depois, estavam transando. Dias depois, namorando. Dias depois, estavam noivos. Dias depois, ela estava grávida. Dias depois, a barriga estava crescendo. Dias depois, depois de meses depois, a criança veio ao mundo. Casaram. E a irmã de Juarez, dias depois, continua virgem, mais virgem do que quando nasceu...



DINHEIRO É UMA DROGA

Eu sempre fui viciado em algum tipo de droga: na adolescência, fumava maconha umas duas três vezes por dia; depois, passei para a cocaína, e cheirava de sete a quatorze fileiras diárias. Hoje, já não fumo mais maconha, nem muito menos enfio o meu nariz numa porcaria que pode me matar sem piedade alguma; entretanto, sou um viciado em dinheiro: quanto mais tenho, mais quero.
O mais engraçado de ser um viciado é que achamos que todo aquele que não usa a mesma droga que usamos está completamente errado. Quando eu fumava maconha, só considerava os maconheiros dignos de minha estima. Tanto era que só andava com maconheiros, vivia em roda de maconha, apertando o fumo, puxando, prensando e passando a bola para os meus verdadeiros camaradas. Juntos, a gente ria daqueles que morriam de overdose...
Mas com o tempo fumar maconha passou a ser entediante. Eu fazia um fino e esperava o efeito: só dava bode. Fazia outro, um jamaicano bem grande, e fumava-o inteirinho, e nada! Desconfiei que fosse a maconha. Investiguei. Saí perguntando para os traficantes se a maconha estava em falta; se o que eu estava comprando não passava de fumo vencido. Riram de mim. E para não me deixar em dúvidas, me deram uma maconha boa, com uma porção de bolas de haxixe no meio: quero ver se eu ia reclamar...
Fumava e nada. Nem ouvindo Bob Marley, nem ouvindo Door’s, nem com haxixe, nem transando com uma gostosa, nem em roda de maluco eu conseguia viajar como viajava antes. Foi quando resolvi cheirar cocaína. Aquilo me deu um ânimo violento, uma euforia desgraçada, passei a ficar mais social, mais empolgado, mais divertido, mais animado. Quando vi, os maconheiros não passavam de gente que não sabe viver a vida; que esse negócio de fumar maconha para ficar rindo de tudo é coisa para adolescente com tendência para o devaneio e a loucura.
Com a cocaína veio o vício de ganhar dinheiro, de ser pró-ativo, e toda a filosofia que herdei puxando um fumo – a de que devemos viver com pouco, que devemos amar o próximo como a si mesmo, que precisamos ficar em paz e toda essa conversa fiada de gente que não quer nada com nada na vida eu deixei para eles, os fumeiros: maconheiro é tudo morgado, sem futuro, que fica rindo da vida enquanto outros a levam à sério e a conquistam.
Fiquei viciado em cocaína, e todo aquele que não cheirava era para mim um otário. Mas o vício pelo dinheiro começou a prevalecer: quanto mais ganhava, mais queria viver. E; portanto, não podia perder a vida numa overdose que um dia ou outro sempre acaba chegando para o viciado em cocaína. Larguei o vício, e passei a considerar que todo aquele que enfia o nariz no pó é um sujeito burro, um jumento, para falar logo o português correto. E assim, fiquei viciado em uma única droga apenas: no dinheiro.
E; da mesma maneira que considerava indignos da minha estima quem não fumava maconha, assim como considerava os maconheiros uns morgados quando passei a cheirar cocaína, comecei a desprezar toda pessoa que não gosta de ganhar dinheiro. E não só isso, a persegui-las também. Na minha empresa, se encontro alguém sem ambição, faço da vida dela um inferno. E se ao fazer da vida dela um inferno e a reação não é a que viso, que é ver a pessoa tornar-se ambiciosa, eu a demito, e excluo da minha vida sem remorso algum, sem esquecer-se de antes humilhá-la publicamente, com todo tipo de calúnias e injustiças.
É, a droga do dinheiro faz isso...
Mas o pior é que não pára por aí. Há outro estágio da droga, que está ligada ao problema da desconfiança. Assim como num certo tempo passava a desconfiar de que todo mundo vinha a ser meu amigo só por causa da minha maconha ou da minha cocaína, hoje desconfio de que todo mundo se aproxima de mim por causa do meu dinheiro. Chego a desconfiar que no fundo, no fundo ninguém me ama, nem mesmo a minha esposa e meus filhos: o que eles amam, na verdade, é o meu dinheiro, só isso, e nada mais.
Já os meus amigos, esses são todos uns filhos da puta interesseiros: alguém já viu algum rico falir e às pessoas que se diziam ser amigos continuar em sua volta? A primeira coisa que elas fazem é virar às costas. É ou não é? Parece que o sujeito pegou uma doença pior do que a lepra. Isto, uma lepra. É como se o sujeito virasse, da noite para o dia, um leproso. Um leproso que pode contagiá-los. Que deve ser isolado da sociedade. Que deve ser esquecido. Que quando lembrado a conversa para, o clima fica pesado, e as pessoas batem com o dedo na madeira, dizendo: isola.
Por causa disto, desta minha desconfiança, fui me tornando um homem solitário. Falo pouco com todo mundo, inclusive com a minha mulher e meus filhos. E quando falo; é só para fazer deles pessoas como eu. Que eles devem ganhar, ganhar, ganhar e ganhar o quanto puder. Que o dinheiro dá isso, que o dinheiro dá aquilo, que o homem é o que ele tem, que todos desprezam e humilham os pobres, os fracassados, os falidos, os perdedores na vida. Contudo, uma coisa eu não digo para eles, ocultando direitinho. E o que não digo é: o dinheiro, meus filhos, é uma droga, uma verdadeira droga...




ISRAEL

Nem todos os casamentos são sagrados, Israel, eles até podem ter passado pelos sacramentos, recebido a benção do sacerdote, se exibido para umas cem a duzentas pessoas que compareceram na festa; mas, de sagrado não tem nada, nada mesmo.
Israel, se você se encontra pobre aí onde está, e de repente uma mulher bonita, jovem, rica e solitária começar a te dar mole, não crie fantasias, achando que agora você vai casar; que achou a pessoa certa; que vai ficar rico. Desconfie primeiro. Ela pode ser mulher de um homem rico.
Israel, a fidelidade é algo muito bonito que acontece somente nas famílias dos pobres. Com os ricos as coisas são diferentes. Um dia você vai ser rico, quero dizer, se continuar desse jeito que você está, trabalhando e investindo, você vai ser rico e vai saber o que estou falando. Você vai ver que ser corno é como dentes bem cuidados: nunca dói.
A única coisa que dói num rico, Israel, é o seu bolso, quando leva prejuízo. Se um dia você ver algum homem de posses bebendo, enchendo a cara, não pense você que ele deve estar aborrecido porque morreu alguém ou porque levou chifres da esposa: quando um homem de posses bebe, Israel, é porque ele perdeu dinheiro.
Israel, caso você encontre uma jovem bonita e solitária que mesmo casada se diz apaixonada por você, não caia na besteira de pensar que ela pode trocar toda a riqueza do marido por um homem interessante, bonito mas pobre. Você não é mais criança, Israel, para acreditar em contos de ficção, ou é?
Também, Israel, nunca desrespeite o corno. Nunca se ache melhor do que ele só porque está comendo a sua esposa. Nem sinta-se um justiceiro, ou um vingativo, dizendo eu posso ser pobre, mas levo para a cama as mulheres dos ricos. Não caia nesta besteira. Ele não precisa saber que você o ajuda; que você faz o bem para ele, pois é isto o que você faz, o bem.
Pesquisas comprovam, Israel, e por isso que gosto muito da ciência, que noventa e nove por cento das pessoas que traem dizem que a relação conjugal volta a ser como antes. É como se a traição renovasse a energia sexual do traidor, compreende? Eu poderia falar os mistérios que estão por detrás disto, mas tenho medo de você não poder entender; mas, na sua linguagem, entrando no seu universo, posso te dizer:
Você come arroz e feijão todo dia, não come?
Então.
Comer arroz e feijão todo o dia, por mais que se use temperos diferentes, acaba enjoando. Assim, você precisa comer uma coisa diferente, não precisa? Algo que te encoraje a aceitar todos os dias o seu arroz e feijão que você come. E assim, sem perceber, você acaba até comendo o seu baião de dois com mais gosto. É o que acontece com o homem ou com uma mulher depois da traição...
Escuta, oh Israel, não seja moralista, nem puritano, achando que o quê é certo tem que ser absolutamente certo, e o que é errado é errado. Não entre no jogo do sim é sim e não é não. Diga sim e não ao mesmo tempo. Não fique com este ou aquele, mas fique com este e aquele, Israel.
E quando você ficar rico, e de repente um pobre comer a sua mulher, não dê importância, pois ele está lhe fazendo um favor, um bem; antes, guarde as suas energias para cuidar de suas financias, Israel, porque é este o único motivo justificável para um homem rico derramar suas lágrimas, o único!, oh Israel...




PALHAÇOS

Uma coisa eu tinha comigo: não iria falir por causa do mau atendimento de meus funcionários. É sempre assim: o sujeito ganha o emprego, trabalha um mês contente e depois começa a fechar a cara ou por isto ou por aquilo. Daí então começamos a exigir do fulano, ver se ele melhora. Mas toda vida é a mesma coisa: vira-se às costas e eles fecham a cara.
Ora, o movimento do meu comércio estava caindo drasticamente. Passei a ter insônia, pesadelos, e medo do futuro. Virava e revirava na cama, pensando em algo para reverter essa minha situação dramática. Eu ia falir se não fizesse alguma coisa. Rezei, mas de nada adiantou. Foi quando – após ter a essa brilhante idéia – decidi vestir todos os meus funcionários de palhaço: quem quisesse assim, ok; quem não quisesse, a porta da rua era a serventia da casa.
Todos ficaram, exceto um orgulhoso, que de repente revelou ter ensino superior completo: quem até então tinha apenas o segundo grau, agora era alguém formado e com diploma na mão, capaz de conseguir um emprego na área em que se formou, onde não iria precisar desempenhar a função de palhaço para cliente algum rir da cara dele. Eu falei tudo bem; é você quem manda chefe, e aceitei a sua demissão.
Fora este; todos se vestiram de palhaços. No começo até que era aquela diversão; mas, como sempre, logo alguns começaram a ficar tristes. E eu não queria palhaço triste no meu estabelecimento comercial de maneira nenhuma! Por isto, quando via um neste estado, logo falava: eu nunca vi palhaço triste nem muito menos entediado, sorria, filho da puta! É claro que eu não usava este termo tão grosseiro. E então, lá davam eles, sorrindo feitos idiotas.
O público gostou. O movimento em meu comércio deu uma reviravolta. E graça aos palhaços, não fali. Pelo contrário, estou ficando cada vez mais rico. Mas; o mais engraçado de tudo isto foi à conseqüência desta minha ação. Teve um que se descobriu: a minha vocação, chefe, é ser palhaço de verdade; quero dizer, de circo mesmo, muito obrigado, e pediu as contas – dias depois, ingressou numa companhia circense, e lá está até hoje, fazendo sucesso representando um palhaço que tira sarro da cara do patrão.
Tive uma surpresa com outro; isto é, com o Flávio. Ele era um funcionário apagado, apático; que, depois de ser palhaço mostrou-se uma pessoa de valor inestimável aos meus olhos. Do dia para noite ficou inteligente, responsável, conselheiro, cheio de idéias para o progresso da minha empresa. E isso sem me apresentar caminhos em que seria obrigado a investir alto, correr riscos. Não hesitei, e nomeei-o ao cargo de gerente. Hoje, para quem andava de ônibus, tem carro, casa, veste-se e come bem.
Aliás, foi ele quem me deu a sugestão de fazer a experiência de vestir-se também de palhaço. Você vai gostar, chefe, vai ver a vida com outros olhos, além de passar a idéia de que não é um patrão perverso que gosta de divertir-se à custa dos funcionários. Aceitei a sugestão, e passei a trabalhar como ele falou. Desde então, aprendi a rir de mim mesmo, coisa que raramente fazia, devido ao meu orgulho maldito. E mais que isso: aprendi a aceitar de bom grado os risos dirigidos à minha pessoa, uma vez que sendo palhaço todo mundo ria da minha cara com gosto.
Renovar é tudo, eis a minha melhor lição. Contudo, não posso dizer que só me surpreendi com maravilhas: quem eu tinha como braço direito, depois da obrigação de se vestir de palhaço passou a ser o primeiro a me desprezar e falar mal de mim fora de minha presença. Me decepcionei muito com certas pessoas, e não cabe aqui nem falar nomes. Já outros, de obedientes passaram a ser rebeldes, de modo que tive de mandar muita gente embora. Foi quando concluí, de uma vez por todas, que o orgulho é realmente uma desgraça, que a humildade fica em primeiro lugar e acima de tudo...
(Ah.., estava me esquecendo: quanto ao sujeito diplomado, dias atrás o encontrei na rua, ainda desempregado...)




JOANA, A LOUCA

Todos aqui sabem por qual motivo Joana ficou louca: virgindade. Ela; que não casou, enlouqueceu aos trinta anos, coisa que jamais teria acontecido se o nosso falso moralismo interiorano não existisse. É claro que a sua personalidade ajudou um pouco: era um tanto sonsa, coitada. Mas isso também tinha culpados: os pais – se eles não a tivessem prendido tanto, desde quando ela se tornara moça, muito provavelmente ela chegaria pelo menos no patamar de mulher educada, oras.
Joana, por essa razão, vestia-se como a mãe, falava como a mãe, comportava-se tal qual. E sendo filha de mulher tapada, que não sabe se vestir, não sabe falar e muito menos se comportar com alguma elegância ou sensualidade, acabou assim, vestindo saias cumpridas e blusas bem tampadas, respondendo tal qual bicho do mato as perguntas de seus possíveis pretendentes. Logo, não demorou muito para ganhar mil apelidos pelo distrito, e ser motivo de piadas quando o assunto era mulher feia e bocó.
Bocó, tudo bem, até que dava para admitir, mas feia, no sentido exato do termo, isto ela não era. Era bonita, então? Também não posso dizer, mas feia, repito: isto ela não era. Ela só não sabia se cuidar como mulher, ainda mais depois da loucura, quando ela começou a usar saias rasgadas e blusas regatas sem o sutiã por debaixo. Qualquer um que quisesse ver os seios dela, branquíssimos e volumosos, podia ver sem muito esforço. Mas, o fato dela ser louca, acrescentando o ralaxismo, pois nem tomar banho ela tomava, como também não cortava o cabelo e nem rapava o sovaco, fazia com que muitos nem admirasse ou ficasse com entusiasmado.
Eu, por outro lado, olhava para os seios delas, balançando por debaixo das blusas regatas que ela usava. E pensava cá comigo: dando-lhe um banho, cortando-lhe o cabelo, raspando-lhe o sovaco, cortando-lhe as unhas, depilando, jogando perfume, por que não? Só porque era um homem de posses? E daí que ela era louca? Para que servem as cordas no momentos de surtos? Era só amarrá-la, trancá-la no quarto, deixá-la gritar e me mandar para rua nas noites de lua cheia, não era?
Foi o que decidi. Num belo dia, fui até a sua casa e pedi ao seu pai, o seu Ernesto, e a sua mãe, a dona Capivara, quero dizer, Isaura, a mão de Joana em casamento. Seu Ernesto, desconfiadíssimo, me fez uma infinidade de perguntas, exigindo que eu me explicasse disso, me justificasse naquilo, que certamente um homem sadio e rico como eu não podia querer uma mulher doente e pobre como a Joana e etc., e etc. Respondi todas as perguntas e questionamentos do velho e por fim dei o meu xeque mate dizendo: eu amo a sua filha, seu Ernesto – e, para convencer mais ainda, acrescentei: e isso bem antes dela ficar louca; portanto, só por que ela ficou assim eu haveria de deixar de amá-la?
Dias depois, Joana estava na minha cama, fazendo amor comigo. Era uma loucura, o que ela fazia. Tudo o que eu mandava, ela obedecia. O único problema era quando ela queria morder a minha bunda ou um dos meus testículos – quando isto acontecia, e tinha que ser rápido, eu tava um tapa na cabeça dela, para evitar o pior. Joana nem chorava, e voltava para o nosso amor. Era curiosa, a danada. Tudo queria ver, tocar, abrir, enfiar o dedo, mas nem tudo eu deixava, é claro.
Salvo os seus acessos de loucura, Joana era perfeita, a melhor coisa que podia me acontecer na vida, principalmente na cama. Que mulher, em plena sã consciência, se passaria por cachorrinha, por macaca? Qual delas aceitaria uma coleira no pescoço e tudo mais? É muito difícil arrumar mulher assim, que aceita tudo. Então, eu tinha tirado a sorte grande. Por outro lado, como quase ninguém nesta vida pode ver um rico feliz, e o que não falta é gente querendo a infelicidade dos outros, logo comecei a sofrer criticas duras a respeito de meu amor.
A mais freqüente delas, era a quanto ao tratamento psiquiátrico da Joana, algo que ela podia fazer, muito mais agora, que era mulher de um homem rico.
– Tratamento psiquiátrico? Para quê?
– Para ela ficar boa.
– E você já viu algum louco ficar são?
– Mas menos louco sim.
– Não, não. Deixe Joana como está, está bom assim... Melhor estraga... – é o que sempre digo.
Não estou certo?



CAPITALISMO SELVAGEM

A minha filha estava um tanto rebelde de uns tempos para cá, coisa normal, da adolescência; mas, o que ela me disse na última vez passou dos limites. Vi na mesma hora que tinha alguém falando mal de mim para ela. Mas quem? Meus funcionários? Meus concorrentes? Meus inimigos? Meus vizinhos?
Apertei-lhe.
– É isso mesmo o que você é: um explorador!
– Quem disse isso?
– Não interessa. Você é sim um liberal explorador!
Liberal explorador, liberal explorador, hum, deixe eu ver, ah, termo intelectual! Os livros? Os livros que ela tinha no quarto? Os filmes? As músicas? Quem, Deus do Céu? E o Deus do Céu me respondeu: o professor dela. Qual professor, meu Pai? O de História.
Lembrei da minha época de universitário, dos professores marxistas, que andavam mal arrumados, com a barba por fazer e um óculo de grau na cara: ainda existe professor assim?
Fui conferir.
Lá na escola, pedi para falar com o professor de História da minha filha. E lá veio ele, só que bem arrumado, cabelo penteado e a cara lisa, sem um fio de barba no rosto. Perguntei se nas aulas dele ele ia contra os profissionais liberais e ele sem hesitar disse que não era contra os profissionais liberais nem contra os empresários, mas ao capitalismo. Eu olhei bem para a cara dele e perguntei se tinha como ele parar com isso, porque a minha filha estava me desrespeitando em casa, me chamando de explorador maldito, capitalista selvagem e um monte de apelidos de mau gosto.
Respondeu-me que não.
– Como não?
– É o meu dever, senhor.
– E qual é o seu dever?
– Mostrar para o aluno de onde vem os males da vida.
– Mas, professor, o seu dever não é ensinar a matéria?
– Também.
– Ah, então quer dizer que o seu dever é caluniar aqueles que pagam o seu salário, é isto?
– Não, não é isto. Eu não sou contra o senhor, sou contra o sistema que vivemos.
– Mas não pode parar de falar essas besteiras para os seus alunos?
– Não.
– Mas, meu amigo. O mundo é assim. Como é que a minha filha vai poder encarar a vida como ela é?
– Só depois que ela ajudar na transformação da sociedade.
– Trans o quê?
– Isto mesmo que você ouviu, senhor, transformação.
– Ah. Você quer saber de uma? Vou conversar com o seu diretor. Passar bem.
E fui à diretoria.
– Não é que quero dar uma de vítima, seu diretor, mas está passando dos limites. O senhor deve imaginar o quanto que eu lutei para conseguir o que tenho. Não foi fácil. Trabalhei que nem um peão de obra, para dar dignidade à minha família e a mim, e agora tenho que engolir um desaforo desses?
– O senhor está certo. Vou falar com ele. É jovem. Um dia aprende.
– Eu acho bom mesmo. Eu pensei que este tipo de professor não existia mais.
– Professor mal preparado, senhor. Não sabe nada e se apóia na autoridade de sua profissão para dizer mentiras que a vida inteira ouviu. O estilo revolucionário se confunde com o espírito crítico, mas não é. Estou te devendo essa, meu amigo.
– Obrigado.
E sai.
Mas; a minha filha, entretanto, continuou me chamando de capitalista selvagem. Fui de novo ao diretor e o diretor me disse que passou vários dias escutando do lado de fora o que o professor dizia; que ele, depois de escutá-lo a sua recomendação, a de não falar mal do capitalismo, finalmente se corrigiu; e se não se corrigiu, pelo menos colocou o freio na língua, porque a única coisa que fazia era repetir o que estava escrito nos livros.
– Será?
– O homem virou um papagaio. Quer ir lá ouvir?
– Quero.
Fomos ouvir.
Realmente, o professor não falava quase nada. Trabalhava em silêncio, só ouvia o barulho dos alunos e o de giz riscando o quadro.
– Viu? Acabou o assunto. Tiramos dele a única coisa que sabia. Agora, vai falar o quê?
– Será diretor?
– Acredite, amigo.
– Mas a minha filha continua me ofendendo.
– Então já não é mais comigo. Você está de prova. Fiz o que você mandou e desmandou. Estou aqui às suas ordens. Se quiser que eu filme as aulas, eu filmo.
– Não, não. Não é preciso, diretor. Eu vou ver o que faço.
– Por que você não conversa com a sua filha? Expõe a sua vida para ela. Fala que você trabalhou que nem peão de obra para ter o que tem, para dar a ela o bom do melhor.
– Peão de obra?
– Não foi isso o que você me falou?
– Não, diretor. Peão de obra nunca fui. Sou um administrador.
– Ah; sim, me desculpe. Mas; fale com ela.
– Vou falar.
A conversa que tive com a minha filha não serviu de coisa alguma. Expliquei direitinho como é a vida, que até Deus concordava comigo; mas não teve jeito: continuou me chamando de capitalista selvagem. Eu quase acreditei no que estava me dizendo; que eu devia ser um capitalista maldito, crápula e sanguessuga, de tanto ela repetir. Mas, Deus me mandou uma voz bem no canto do ouvido, dizendo: pegue o livro de História dela, pegue para você ver...
Peguei e li: era o livro. Fui até o diretor e falei com ele sobre a minha descoberta, que seria de bom senso que ele encontrasse um livro didático que não falasse mal dos capitalistas.
O diretor passou a mão no cabelo, no rosto, coçou o queixo, torceu o nariz assim, ó, de lado, e finalmente falou: tudo bem, mas que livro? Não sei, seu diretor, não me formei em Pedagogia para saber.
O diretor já estava para me mandar tampinha no asfalto; mas deve ter se lembrado do código civil; sobre o direito do consumidor e todas essas regras que existem para o nosso bom convívio social.
– Eu vou ver – disse o diretor.
Fiquei dias esperando por uma resposta dele, até receber um telefonema seu: olha, senhor Valdemir, eu passei a semana inteira lendo tudo quanto é tipo livro de História, é como se fosse uma praga, uma epidemia, não tem jeito, tanto o senhor como eu e os professores somos as vítimas; não existe um livro didático que não fala mal dos liberais, o que vamos fazer?
Eu fiquei pensando em algo, numa solução, o mundo do ensino não pode estar sendo dominado assim por uma minoria, tal como no mundo dos negócios. Era preciso ver quem era o culpado; “transformar” a realidade, como me disse o professor da minha filha.
– Já sei, diretor...
– Já sabe, é? Então seja meu amigo e me conte – falou ele.
– Vamos protestar; fazer um mutirão; pegar todos os livros que vão contra nós e tocar fogo em praça pública! O que você acha?
– Você ficou louco.
– Não, não fiquei não. Assim o Governo e o Ministro da Educação serão obrigados a fazer algo. Do contrário, vai ser sempre assim...
– Olha, seu Valdemir. Me desculpe. Mas nessa eu não entro.
– Não entra, é?
– Não.
– Então está bem – eu disse, desligando, e pensando comigo: como no mundo tem traidores...

Glauber da Rocha

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